Ando devagar porque já tive pressa... tive mesmo. Já corri quando menino pra empinar papagaio, já corri de marimbondo pra não tomar ferroadas. Corri atrás do meu irmão pra brigar, depois corri da mamãe pra não apanhar.
Então fiquei mais forte. Até fui chamado de "leãozinho" por uma moça uma vez. Fiquei tímido. Aquelas coisas que falam sem você estar esperando que te deixam sem reação. Mas confesso que gostei. Senti na voz dela um tom diferente, carinhoso. Ela era lindinha, precisavam ver.
Corri muito, comi muito, cresci. Crescido, bati asas, saí do ninho. Um vôo calmo, sereno, parecido com de gente grande. Aterrissei numa casinha distante, simples, aconchegante. Nela construí La Vitta Mia. E nesse novo recanto, por várias vezes mostrei meu canto, expus o pranto, falei da dor. Falei de alegria, sorri um sorriso que dizem que contagia, senti amor.
Hoje, levo a certeza de que muito pouco eu sei, ou nada sei. Fiz amigos e várias vezes voamos juntos. Tive paixões a quem muito dediquei. Amei uma só. Uma andorinha, bem lindinha, parecia um curió. Me dei por inteiro, rasguei meu coração. Aprendi que é preciso amor pra poder pulsar, aprendi que é preciso paz pra poder sorrir, aprendi que é preciso chuva para florir. Tudo isso, aprendi numa canção. Canção pra vida toda.
Várias e várias vezes brinquei com as letras, repeti palavras, inventei outras tantas. Dizem que neologizei. Pode ser. Afinal, nem eu sei. Na estrada corri, cresci, voei. Agora, já na curva do caminho, olho toda essa Vitta. La Vitta Mia que vivi, escrevi, compartilhei. Fui amado, elogiado, fui tido como engraçado, me emocionei. Fui visto como sério e fui xingado...mas nunca julguei.
Hoje, penso que cumprir a Vitta seja simplesmente compreender a marcha. O tempo passou e mudaram as estações. Já estamos num típico inverno chuvoso, ninguém diz que já passamos pelo verão. O outono deu seu fruto, a primavera eternizou sua flor. E cada um compondo a sua história, é assim que segue a vida: um dia a gente chega e outro vai embora. Deixarei amigos, deixarei paixões, deixarei amor. Levarei a saudade dentro do peito, a pulsada forte do coração. Levarei o engasgo na garganta e não sei conterei as lágrimas que insistem em cair de tamanha emoção.
Com a mochila nas costas, o corpo cansado e a alma sentida, ainda olho pra trás. Vejo todos com um sorriso no rosto, apesar do aperto no coração. Vejo por detrás da multidão aquela andorinha alçar vôo e bater suas asas como despedida. Mesmo longe ainda escuto seu doce canto, um docinho realmente. Estará comigo em pensamento e eu,....eu preciso seguir tocando em frente.
Ismael Alexandrino.
A todos que até hoje, por algum motivo passaram por aqui participando um pouquinho de La Vitta Mia, fiquem com DEUS e um grande e sincero abraço.
made in Casca de Noz às 4:18 AM
Terça-feira, Abril 20, 2004
Coerência
Despertador toca. Com o travesseiro ainda na cabeça, em braile, re-programo a jeringonça pra tocar após dez minutos. Chegada a hora, o "pipípi" onomatopaicamente me re-acorda. Espreguiço antes de abrir os olhos, enquanto trago à memória os afazeres do dia a fim de executa-los coerentemente no decorrer do dia. Dou um tapa no "play" que fica ao lado de minha cama e levanto-me. Geraldo Vandré começa se justificando que falou das flores e eu, de cueca retendo meu xixi, vou caminhando e cantando pra tomar meu banho.
Já cheiroso e devidamente escovado, entrei Num conjunto da moda e nele me senti à vontade. Chamei os três elevadores que, de pronto, me atenderam abrindo educadamente as portas. Fiquei grato pela solicitude.
Enquanto esperava meu colega, sentindo a maresia no rosto, olhava as ondas irem e virem. E naquela oscilação periódica também iam e vinham meus devaneios e conjecturas. Ainda divagava silenciosamente quando, ao longe avistei o cabeça vermelha. Não. Ele não era ruivo e o sol àquela hora, apesar de já forte, não havia sido suficiente pra ruborizar-lhe a tez. Refiro-me a cor rubra de sua ideologia. E esta, até respeito com vista na diplomacia. Contudo, não ao ponto de fazer da democracia uma extenuante burocracia.-- Como é chato ser cacófaco quando não se quer fazer poesia! Peço desculpas aos rigidamente letrados.
Nos longos metros daquela orla, trocamos alguma palavras iniciais. Cumprimentos cidadãos, diria. Quase cozinhando sob o sol tropical, o ar-condicionado não podia ser ligado porque o nobre colega estava gripadinho. Ainda propus ligar o ar-quente, ao que ele recusou.
Poucos minutos passados e ele começa regurgitar suas inebriantes idéias "humanistas". Quase me comovi ante tamanha sinceridade e congruência de atitudes. Mantendo uma postura lacônica, me detinha em apontar alguns pontos sofismáveis em seu discurso ufanista. Inescrupulosamente, diria eu, rebelde-sem-causa-e-sem-razão. Em face a alguns apontamentos, o jovem se desapontou e, com ímpeto, deferiu-me o título de burguês incoerente. Quase ofendido, sorri internamente. Até meu íleo paralítico deu uma risadinha discreta.
Como ele é um ás da retórica moderna, vendo a reação do público (muito prazer!), logo abriu seu recheado leque de assuntos. Num deles, tão pouco interessante que não me lembro bem, indagou-me:
"__ Qual a data do seu aniversário?" -- com um ar de prestativo, típico.
"__ 26 de julho." -- respondi.
Mostrando interesse humanista, continuou:
" __ Que ano?"
"__ Todo ano!"
Sinceramente, não sei onde está a incoerência.
Ismael Alexandrino
A todos, burgueses ou cabeças vermelhas, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 4:18 AM
Sexta-feira, Abril 16, 2004
Certa feita, conversando com uma amiga sobre amores mal resolvidos, lembrei-me de um texto de Arnaldo Jabor.
Amores mal resolvidos
Olhe para um lugar onde tenha muita gente: uma praia num domingo de 40º, uma estação de metrô, a rua principal do centro da cidade.
Metade deste povaréu sofre de Dor de Cotovelo.
Alguns trazem dores recentes, outros trazem uma dor de estimação, mas o certo é que grande parte desses rostos anônimos tem um Amor Mal Resolvido, uma paixão que não se evaporou completamente, mesmo que já estejam em outra relação.
Por que isso acontece? Tenho uma teoria, Ainda que eu seja tudo, menos teórico no assunto. Acho que as pessoas não gastam seu amor. Isso mesmo. Os amores que ficam nos assombrando não foram amores consumidos até o fim.
Você sabe, o amor acaba. É mentira dizer que Não. Uns acabam cedo, outros levam 10 ou 20 anos para terminar, talvez até mais. Mas um dia acaba e se transforma em outra coisa: lembranças, amizade, parceira, parentesco, e essa transição não é dolorida se o amor for devorado até o fim.
Dor de Cotovelo é quando o amor é interrompido antes que se esgote.
O amor tem que ser vivenciado. Platonismo funciona em novela, mas na vida real demanda muita energia sem falar do tempo que ninguém tem para esperar. E tem que ser vivido em sua totalidade. É preciso passar por todas etapas: atração-paixão-amor-convivência-amizade-tédio-fim.
Como já foi dito, este trajeto do amor pode ser percorrido em algumas semanas ou durar muitos anos, mas é importante que transcorra de ponta a ponta, senão sobra lugar para fantasias,
idealizações, enfim, tudo aquilo que nos empaca a vida e nos impede de estarmos abertos para novos amores.
Se o amor foi interrompido sem ter atingido o fundo do pote, ficamos imaginando as múltiplas possibilidades de continuidade, tudo o que a gente poderia ter dito e não disse, feito e não fez.
Gaste seu amor. Usufrua-o até o fim. Enfrente os bons e maus momentos, passe por tudo que tiver que passar, não se economize. Sinta todos os sabores que o amor tem,
desde o adocicado do início até o amargo do fim, mas não saia da história na metade. Amores precisam dar a volta ao redor de si mesmo, fechando o próprio ciclo.
Isso é que libera a gente para Ser Feliz novamente.
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 5:09 AM
Domingo, Abril 11, 2004
Leitura de sétimo dia
Da casca de noz saí pra aprender
Li bem aqui, coisas que nunca vou dizer
Antes folheei várias páginas
Degustando um suave tinto
Primeiro parágrafo Li coisa e tal
Li o seguinte; muito bom por sinal
Um gole de vinho,um devaneio no olhar
Pensei devagarinho pro nervo não cansar
Voltei os olhos com intenção de ler
Li direitinho tentando entender
O que as palavras queriam me dizer
Não entendi!Ouvindo a música cantar.
Parei de ler, voltei pra casca de noz,
E o dito Livro, resolvi fechar.
Ismael Alexandrino
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 4:32 AM
Segunda-feira, Abril 05, 2004
Ortodoxo sim, mentecapto jamais!
Resoluto, não posso me calar. Dialoguei bastante tempo com minha prudência, consultei a subjetividade da ética, trouxe à tona arquivos já velhos e gastos pelo cotidiano da moral. Nenhum deles deferiu-me quaisquer entraves.
Vive-se no Brasil um período de euforia em torno da quebra de paradigmas. Em praticamente todos os âmbitos da vida em comunidade, fala-se que se precisa mudar. Hábitos alimentares, estilos de vida, conceitos, pré-conceitos, tipos de música, religião, pensamentos políticos, ideologias, formas de se aprender, formas de se ensinar. Nota-se, portanto, uma pan-inquietação.
A formação acadêmica não está isenta deste contexto. As ciências exatas, apesar de se basearem em resultados comprobatórios, apresentam correntes filosóficas bastante subjetivas. As humanidades, permeando a subjetividade, é um foro constantemente aberto de discussões. As ditas biológicas, reascende uma discussão em torno da metodologia de ensino com vista a humanização profissional, como defendem os reformadores.
Frente a esse cenário de mudanças me pergunto o que os "visionários" entendem por humanização. Volto os olhos, quando indago sobre isso, principalmente pra formação médica. Pois esta, passa por uma reformulação de currículos, bem como de metodologias de ensino em todo território nacional. Contudo, atribui-se o sucesso da humanização do futuro profissional a uma reorganização (ou seria desorganização) do currículo somente. O que causa apreensão, no entanto, é por quem essa discussão do ensino médico está sendo representada. Não digo que inexiste profissionais capacitados envolvidos no processo, mas estes perfazem uma parcela mínima. Infelizmente a grande força motriz de tal mudança tem sido colegas de comportamento humanístico no mínimo discutível.
Há poucos dias, quando chegava no hospital deparei-me com uma atitude que me fez aumentar o repúdio ao conceito de humanismo dos "visionários" médicos do futuro. Um dos principais representantes do movimento de reformulação do ensino médico em nível nacional, ex-presidente da Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina, protagonizando uma cena patética. Quão grande foi o meu asco, como de outros colegas, ante aquele acontecimento. A figura ilustre, dentro de uma Kombi de som,esbravejando na porta de dois dos principais ambulatórios do hospital, pra que os estudantes protestassem contra o aumento da mensalidade escolar, que não passa de uma taxa, haja visto a instituição ser pública estadual. A silhueta "Che Guevárica" evocava a todos para que fisessem uma passeata atrás da jeringonça reclamando com o reitor. Tornou-se mais patético ainda por ninguém aderir ao "panelaço". O fato dele não concordar com o aumento da taxa não discuto. O questionamento tange o grau de ética e de humanismo apresentado pelo revolucionário ao berrar feito um cantor de pagode de quinta categoria bem próximo aos leitos de doentes acamados do centro de oncologia.
A humanização que almejo vai muito além de se promover campanhas pra dar biscoito para os doentes ou acompanhantes. Vai muito além da manifestação de sentimentalismo barato à beira do leito em detrimento de uma pesquisa semiológica eficaz. Vai muito além de uma grafitagem anti-higiênica nas imediações das enfermarias de que "vamos mudar o Brasil". Não permite uma manifestação mentecapta de cunho politiqueiro nos ouvidos de doentes terminais.
Se é essa a visão de humanização que permeia o ideário dos "revolucionários", conservarei minha ortodoxia com vista em um cuidado baseado em elevados padrões éticos e científicos. Ortodoxia essa que acredita que humanização se demonstra em pequenas atitudes diárias adquiridas de berço e associada a um conhecimento digno de um profissional capacitado. Não em idéias mirabolantes surgidas no afã de discussões dantescas, muito menos que tangem as incongruências demonstradas por néscias atitudes totalmente desprovidas de lisura moral ou de quaisquer noção de ética.
Ismael Alexandrino.
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 6:04 AM
Sábado, Abril 03, 2004
Coração relutante
Hoje passei em frente à sua casa.
De soslaio, lancei um olhar na janela;
Vi algo, mas não era minha donzela.
Um passarinho saiu batendo asa...
Em seu bico percebi um bilhetinho,
Notei que era o retrato de Gabriela;
Verso inconfundível, li a letra dela.
Todas as palavras ditas com carinho...
Não queria me ver!... "coisas da razão"!
Não posso entender, pois o que sinto
Vem de longe, do fundo do coração.
Tantas vezes vi risos na janela
Agora, com pesar, tento acostumar
Com a silhueta estática da donzela
Ismael Alexandrino
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 6:09 AM
Sulla me e il mio posto
Rebentei, mas não explodi. Numa manhã de 1983, em Goiás já se tinham passado 26 dias do mês de julho. Não me lembro muito bem como foi. Aquele cara de touca que não queria me cheirar, tinha nojo de me pegar e ainda me virava de cabeça pra baixo. Fez aquele momento cair no esquecimento. Perambulando pela vida, caí em Recife, onde, dentre outros hobbies, curso medicina. Neste recinto, nunca minto. La Vita Mia é uma generosa cria. O que faço quando posso, o que penso quando penso, o que sonho e projeto quando acordo. Hobbies conhecerão por aí fazendo parte daqui. Puxe uma cadeira, peça um foundie, tire as rusgas da testa, mas não pare por aí. Vamos prosear, não se acanhe em se expressar. À vontade pode ficar, pois respeitado será quando falar. No mais....Carpe Diem and Carpe Vita!