Antes de lerem uma crônica do cotidiano, convido a passarem em silêncio e de forma bastante respeitosa no Blog da Chinezinha (post 25/11/03).
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Vida eterna, um axioma
O final do semestre chegou e com ele as correrias típicas. E nessa dança frenética, pouco tempo sobra pra eu dedicar à exposição de idéias e sentimentos num verde-louro vernáculo. Resta-me, nesse tempo, balbuciar apenas àqueles que me rodeiam no dia-a-dia. Tenho me ocupado por demais com atividades ligadas diretamente à medicina. Recentemente estive no Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia, estive fazendo outros cursos também ligados à arte de curar; esta semana participo do Fórum Brasileiro de Ralação Médico-Paciente. Tudo isso tem me privado um pouco da escrita. Uma questão de prioridade num mundo em que tudo tem seu tempo.
E nesse mundo em que o tempo é eterno (kaytos),torna-se difícil entendê-lo em um tempo limitado (kronos), humano. Nesse paradigma antropocêntrico, no qual até o tempo, (um ente eminentemente abstrato), tentamos delimitá-lo, objetivá-lo, e voltá-lo ao nosso benefício, torna-se difícil entender o porquê de algumas coisas. Dentre elas, entender que há tempo de nascer, e tempo de morrer.
Pra muitos, a última etapa do ciclo da vida, é o mal maior, há aqueles que dizem o pior. Essa insepulta que vocifera contra a vida nos assusta, nos deixa impotentes, tristes, alguns, dizem, sem razão de ser, há aqueles que se sentem aliviados; tantos outros, estáticos e desnorteados. Vivemos num tempo limitado. Sob essa ótica, quando o cronômetro pára, nada mais pode ser feito. Parece que a corrida acabou e você ainda está no meio da pista sem contemplar a linha de chegada. Parece que o rio secou sem chegar na foz. Tudo posta-se como um conjunto vazio com uma dúvida atroz.
Contudo, verdade universal é irrefutável. Não há lugar pra relativismos. De fato, existe tempo pra tudo. O relógio, marcador do Kronos pode até parar, mas a corrida não acaba. A prova continua e um Torcedor Fielcorrerá sempre do lado com o relógio marcador do Kaytos. O rio não seca, mas chegar-se-á ao Oceano que o espera ansioso e de braços abertos. Conjunto vazio não existe; o que ocorre é que ele é preenchido homogêneo e totalmente por um Elemento, a ponto de pensarmos que nada existe dentro. Alguns, podem até me olhar de soslaio ante a este axioma. Entretanto, resta-me manifestar um sorriso singelo de um matemático que, ao final de um teorema regozija-se com um "quod erat demonstrandum"(como queríamos demonstrar) .
Ismael Alexandrino.
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 1:06 PM
Antes de lerem uma crônica do cotidiano, convido a passarem em silêncio e de forma bastante respeitosa no Blog da Chinezinha (post 25/11/03).
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Vida eterna, um axioma
O final do semestre chegou e com ele as correrias típicas. E nessa dança frenética, pouco tempo sobra pra eu dedicar à exposição de idéias e sentimentos num verde-louro vernáculo. Resta-me, nesse tempo, balbuciar apenas àqueles que me rodeiam no dia-a-dia.
Tenho me ocupado por demais com atividades ligadas diretamente à medicina. Recentemente estive no Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia, estive fazendo outros cursos também ligados à arte de curar; esta semana participo do Fórum Brasileiro de Ralação Médico-Paciente. Tudo isso tem me privado um pouco da escrita. Uma questão de prioridade num mundo em que tudo tem seu tempo.
E nesse mundo em que o tempo é eterno (kaytos),torna-se difícil entendê-lo em um tempo limitado (kronos), humano. Nesse paradigma antropocêntrico, no qual até o tempo, (um ente eminentemente abstrato), tentamos delimitá-lo, objetivá-lo, e voltá-lo ao nosso benefício, torna-se difícil entender o porquê de algumas coisas. Dentre elas, entender que há tempo de nascer, e tempo de morrer.
Pra muitos, a última etapa do ciclo da vida, é o mal maior, há aqueles que dizem o pior. Essa insepulta que vocifera contra a vida nos assusta, nos deixa impotentes, tristes, alguns, dizem, sem razão de ser, há aqueles que se sentem aliviados; tantos outros, estáticos e desnorteados. Vivemos num tempo limitado. Sob essa ótica, quando o cronômetro pára, nada mais pode ser feito. Parece que a corrida acabou e você ainda está no meio da pista sem contemplar a linha de chegada. Parece que o rio secou sem chegar na foz. Tudo posta-se como um conjunto vazio com uma dúvida atroz.
Contudo, verdade universal é irrefutável. Não há lugar pra relativismos. De fato, existe tempo pra tudo. O relógio, marcador do Kronos pode até parar, mas a corrida não acaba. A prova continua e um Torcedor Fiel correrá sempre do lado com o relógio marcador do Kaytos. O rio não seca, mas chegar-se-á ao Oceano que o espera ansioso e de braços abertos. Conjunto vazio não existe; o que ocorre é que ele é preenchido homogêneo e totalmente por um Elemento, a ponto de pensarmos que nada existe dentro. Alguns, podem até me olhar de soslaio ante a este axioma. Entretanto, resta-me manifestar um sorriso singelo de um matemático que, ao final de um teorema regozija-se com um "quod erat demonstrandum"(como queríamos demonstrar) .
Ismael Alexandrino.
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 12:55 PM
Domingo, Novembro 23, 2003
Depois de uma exaustiva semana, sombra e água fresca. Depois, baseado em ensinamentos empíricos, água de côco gelada e sauna pra eliminar o stress pelos poros. Ufa!!! Que água fria! Lá dentro estava bem mais quentinho... Balanço a cabeça, ajeito as idéias no lugar (ou quase). Ouvira catedráticos demais a semana toda. Agora, um Kenny G e um ambiente perfumado e climatizado, banhado por uma luz azul me bastam.
É chegada a hora de La Vita Mia sair da minha Casca de Noz. De forma tranqüila, como que um molusco saindo de dentro do seu caracol...Primeiro as antenas, monitorando o território, depois a cabeça e, finalmente, o corpo. Olho de um lado pra outro, noto pouca gente no entorno, gente num fugere de Carpe Vita.A multidão na frente, já mui longe e o bicho-da-seda agora que está saindo do casúlo. Mas saiu. E fora dele, lindas sedas serão tecidas. Como dantes já houve tessituras fortes, vistosas, irônicas, alegres, tristes, românticas, descompromissadas, engajadas, outras terão. Lendo histórias de um outro casúlo vi algo que carece exposição. Na verdade, uma seda bordada por Drummond que carece ser vista por aqueles que vivem nesse mundo cão; uns gostam, outros não.
Ainda pensei porque nela tinha um grifo no qual falara de mim. Afinal, nem somos contemporâneos. Como sua seda é boa,arrisco a usá-la diante de quem quer que seja.
O AMOR de Ismael, SEGUNDO DRUMMOND
Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de
funcionar
por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante
da
sua vida.
Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho
intenso
entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você esta esperando
desde o
dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os
olhos se
encherem d'água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.
Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a
vontade
de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um
presente divino - o amor.
Se um dia tiverem que pedir perdão um ao outro por algum motivo e em
troca
receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos e os gestos valerem
mais
que mil palavras, entregue-se: vocês foram feitos um pro outro.
Se por algum motivo você estiver triste, se a vida te deu uma rasteira
e a
outra pessoa sofrer o seu sofrimento, chorar as suas lágrimas e
enxuga-las
com ternura, que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em
qualquer
momento de sua vida.
Se você conseguir, em pensamento, sentir o cheiro da pessoa como se ela
tivesse ali do seu lado...
Se você achar a pessoa maravilhosamente linda, mesmo ela estando de
pijamas
velhos, chinelos de dedo e cabelos emaranhados...
Se você não consegue trabalhar direito o dia todo, ansioso pelo
encontro que
está marcado para a noite...
Se você não consegue imaginar, de maneira nenhuma, um futuro sem a
pessoa ao
seu lado... Se você tiver a certeza que vai ver a outra envelhecendo e,
mesmo assim,tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela...
Se você preferir morrer, antes de ver a outra partindo : é o amor que
chegou
na sua vida. É uma dádiva. Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na
vida,
mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro. Ou às vezes encontram
e,
por não prestarem atenção nesses sinais, deixam o amor passar, sem
deixa-lo
acontecer verdadeiramente. Por isso, preste atenção nos sinais - não
deixe
que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida:
O
AMOR...
Carlos Drummond de Andrade
A alguém, um grande beijo.
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 4:10 AM
Quarta-feira, Novembro 19, 2003
O texto de hoje é um tanto quanto extenso. Trata-se de uma opinião pessoal baseada em fatos históricos. Nele, viso elucidar uma visão distorcida que se tem acerca da medicina social aplicada no Brasil. Desprovido de quaiquer interesses políticos ou partidários, primo pela imparcialidade e lucidez histórica com o intuito, tão somente, de ampliar a visão do tema em questão, bem como voltar os olhos para o epicêntro da mesma.
A socialização da medicina
Analisarmos dados e fatos históricos somente como tais não tem proveito algum na construção e desenvolvimento de nossa história pessoal. Devemos analisá-los e dimensioná-los no que eles podem contribuir para que sejamos seres pensantes, não alienados, providos de um senso crítico que nos respalde como seres ativos na sociedade, contudo, conscientes do nosso papel social que nos concerne a prática médica.
Michel Foucault, filósofo francês com estudos nos campos da geografia, da justiça, da sexualidade, da psiquiatria, da medicina, do corpo, dos intelectuais e do Estado, trata também do nascimento da medicina social e do nascimento do hospital. Foucault não via a medicina grega como coletiva e social, contrapondo-se a vários críticos da medicina atual que passam a idéia de que a medicina antiga, grega e egípcia, bem como a das sociedades primitivas são sociais, coletivas ,não centradas sobre o indivíduo.
Contudo, sabe-se que a medicina moderna tem sem dúvida alguma um caráter social. O aspecto individualista está na valorização da relação médico-paciente. É possível expender alguns aspectos baseados na história da medicina que não foi o capitalismo o agente de transformação da medicina social para a medicina privada, mas o contrário. Isso pode ser observado na medida que, a partir do fim do século XVIII, passou a socializar o homem enquanto força de produção, o corpo humano como força de trabalho. Fala-se no decorrer da história de uma medicina de Estado, de uma medicina urbana e de uma medicina de trabalho.
A medicina dita de Estado desenvolveu-se na Alemanha no início do século XVIII. Todo conhecimento amealhado era para servir o Estado. Este passa a ser o objeto de conhecimento, instrumento e lugar de formação de conhecimentos específicos. Essa ciência estatal alemã está atrelada ao fato da existência, nesta época, pseudo-estados, estados fragmentados, quase estados, não um Estado único como a França e a Inglaterra. Estados únicos, como o já citados poderiam funcionar de uma forma inconsciente até, dotando-se dos grandes aparelhos como o exército ou a polícia. Na Alemanha a pequena dimensão dos Estados tornou necessária e possível a consciência discursiva do funcionamento estatal da sociedade. Isso nos remete a condição atual de neo-liberalismo, no que diz respeito a diminuição do Estado. Pode parecer paradoxal, mas uma pequena estrutura, no caso, o Estado, induz a socialização como forma de desenvolver. Pequena estrutura aqui refiro-me às responsabilidades e deveres do Estado e não o poder que ele tem. Em que isso pode ser aplicado no entendimento da prática médica e políticas de saúde dos dias atuais? A visão de um estado fragmentado como é o Brasil, enquanto ideologia e não fisicamente, clama por uma socialização do setor de saúde. Digo fragmentação ideológica tendo em vista os diversos interesses que campeiam o setor de saúde (hospitais particulares, clínicas, laboratórios, bem como entidades restritas ao SUS).
A condição de fragmentação da saúde brasileira, assim como os Estados fragmentados da Alemanha, são propícios para uma medicina social, uma ciência voltada para a aplicação na sociedade. Daí, fica claro a necessidade de compreendermos o papel do Sistema Único de Saúde, da formação acadêmica financiada pelo Estado, enfim, do contexto em que estamos inseridos. Como médicos em potencial temos que entender a dimensão do conspícuo papel do médico na sociedade.
A França e a Inglaterra do século XVIII, cravadas no processo de urbanização e industrialização, não dispunham de nenhum mecanismo de intervenção efetiva para se elevar o nível da saúde da população, senão o simples estabelecimento de tabelas de natalidade e mortalidade. E naquela época não se tinha os pés calcados no capitalismo. Então, não se pode dizer que houve uma privatização da medicina com o advento do capitalismo, mas sim o caminho contrário. Nunca a medicina esteve tão socializada, nunca tiveram tantas políticas de saúde advindas do Estado, como alguns insistem em afirmar. O que deve ser questionado é a aplicação direta dessa medicina. O que deve ser desenvolvido é justamente o lado individual da medicina no que tange a relação médico-paciente; essa sim carece uma melhor avaliação e questionamento. Um cuidado e capacitação especiais. Remontando novamente à medicina de Estado da Alemanha, a universidade e sobretudo a própria corporação dos médicos tem um papel sine qua non na reavaliação da formação médica. Remonta-se também à medicina social inglesa que cresceu junto com o capitalismo não excluindo o aspecto econômico do processo, haja visto que priorizava o controle da saúde e do corpo das classes mais pobres para torná-las mais aptas ao trabalho e menos perigosas às classes mais ricas. Alguns podem achar uma motivação maquiavélica e até mesmo maniqueísta, contudo não são apenas teóricos da prática médica que, enquanto teóricos nada fazem. Mais uma vez fica claro que nos dias de hoje falta muito a desenvolver o aspecto individualista da medicina, a relação médico-paciente.
Um aspecto bastante importante que Foucault nos evidencia é o nascimento dos hospitais enquanto ambiente de tratamento médico. Até o século XVIII não era o doente o personagem principal do ambiente hospitalar, mas sim o pobre que estava morrendo. Assim, o pessoal do hospital era um pessoal caritativo, leigo ou religioso, que estava no hospital para fazer uma obra que lhe assegurasse a salvação eterna. Na verdade era uma função de transição entre a vida e a morte, de salvação espiritual mais do que material, aliada à função de separação dos indivíduos perigosos para a saúde geral da população.
Nesta época, a experiência hospitalar estava excluída da formação ritual do médico. A intervenção do médico na doença era organizada em torno da noção de crise. O médico devia observar o doente e a doença, desde seus primeiros sinais, para descobrir o momento em que a crise apareceria e então ele poder atuar. Foucault põe-nos a vista uma prática, apesar de bastante simples na época, que é de fundamental importância na atuação médica. Mais uma vez, enfatizo a relação médico-paciente que é de extrema importância para a investigação e cura de determinadas doenças, bem como a prevenção de muitas outras. Viu-se nos hospitais militares e marítimos o uso deles para se tratar os doentes, e não só como um ambiente terminal da vida. A disciplina do modelo destes hospitais foi observada como aspecto positivo. A partir de então, os hospitais passaram a serem vistos também como lugar de tratamento dos doentes. Agora, doentes não eram simplesmente isolados. Agora, o médico passara a exercer um papel preponderante no ambiente hospitalar, tudo em um hospital deveria ser avaliado pelo médico como forma de proporcionar uma melhor condição para o enfermo, o que é algo extremamente atual.
Em suma, podemos observar aspectos importantíssimos na descrição e análise tanto do nascimento da medicina social quanto do nascimento dos hospitais com finalidade terapêutica. Contudo, se analisarmos suas considerações somente como dados históricos, de nada valerá nosso estudo. É claro que devemos imputar o valor histórico devido, mas acima de tudo refletirmos sobre o que suas análises contribuem no cotidiano médico. Se devemos nos ater a discussões meramente filosóficas de políticas de saúde ou por em prática a verdadeira função do médico que é cuidar do próximo de forma integral, com respeito, competência e ,acima de tudo, de forma humana.
Ismael Alexandrino.
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 12:05 AM
Segunda-feira, Novembro 17, 2003
Amigo leal
Bastante cansado, resolvi que não levantaria. O micro-clima, ainda que artificial, convidava-me a permanecer debaixo daquele gostoso ededron. Naquele momento, o travesseiro era meu confidente e a cama um afetuoso colo. Com o coração apertado, miúdo, o aconchego da minha casca de noz era o que me fazia bem.
Contudo, neste dia, havia marcado hora e lugar pra encontrar-me com um amigo. Não raro, nos encontramos. Amigo do peito, pessoa inseparável, companheiro de todas as horas, às vezes comportando-se como pai, outras como irmão, todas porém, com bastante intimidade e zelo. Mas neste dia ficamos de conversar em um lugar especial. Tornaria-me um pérfido se continuasse hedonicamente em meu ninho.
Revelando um egoísmo irresponsável e uma amizade nada altruísta, decidi que o próximo suspiro seria pra adormecer debaixo do travesseiro. E de fato, virei para o canto e respirei fundo. Antes de adormecer, porém, num lapso de tempo, percebi um avículo canto. Vinha da sacada. Um episódio incomum, tendo em vista que a altitude era considerável. Um canto bonito, alegre, vibrante, como que anunciasse a entrada triunfal de uma noiva na igreja. E realmente anunciava algo. Na verdade, a aurora, toda vestida de nuvens bem branquinhas, por uma fresta jazia percebida radiante no horizonte.
Tirei as penas de ganso empacotadas de cima da cabeça pra ouvir aquele sibilo compassado. Parecia um tenor italiano. Um pouco mais agudo, mais alto, talvez um contralto. No embalo daquela melodia, virei-me. Agora, em decúbito dorsal, olhava o teto enquanto acompanhava com os lábios aquele silvo peculiar. Ainda tive que umedecê-los pra melhorar a afinação.
Após alguns minutos de solo, aliás, dueto, resolvi ver quem me fizera despertar. Levantei e, enquanto recolhia a persiana da sacada, notei quase que em um vulto, o passarinho bater as asas e ir embora. Aquilo intrigou-me.
Enquanto olhava por alguns minutos o mar, pensei no encontro que havia marcado com meu amigo. Geralmente, tem-se o costume de ligar antes confirmando o encontro ou coisa parecida. Mas até meu celular estava desligado, seria impossível alguém, humanamente falando, despertar-me daquele sono pra confirmar algo.
No entanto, apesar da minha intenção de ser-lhe desleal, em nenhum momento o fora comigo. Pelo contrário, por várias vezes já havia me perdoado inclusive, recordo-me, uma vez deu a vida em meu lugar, único e exclusivamente pra me salvar. Como sabia que precisa tratar assuntos importantes comigo naquele encontro que marcamos, mandou um passarinho me acordar. Como é bastante educado e de um bom siso sem par, escolheu uma canção alegre a tal ponto de me acordar sem suscitar-me mau-humor. A isto tudo, não vejo outra denominação, senão, Divina Amizade.
Ismael Alexandrino.
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 12:46 AM
Sexta-feira, Novembro 14, 2003
Já dizia Drummond que "de ordinário, o convívio das letras não gera amigos,mas cúmplices". Recentemente, ainda falei pra meu nobre confrade Avaniel Marinho que, em um de seus textos, ele conseguira alcançar uma descrição perfeita do amor. Sua escrita deveras inefável, de tamanha peculiaridade conseguira, momentaneamente, tolher-me de quaisquer tentativa de falar sobre o dom supremo, o dom de amar. Qualquer palavra minha, ainda disse a ele, soaria como néscia diante de tamanha magnitude.
Na ocasião, Avaniel com sua postura sóbria e gentileza singular disse que discordava de mim. Ainda sorri e falei-lhe que meu silêncio seria momentâneo e, tão logo novamente começaria em versos ou em prosa a amar. Afinal, o mesmo Drummond disse que "amar se aprende amando".
Contudo, antes que eu esboce qualquer verso ou sílaba poética sobre o amor, gostaria de evidenciar-lhes como o amor deveria ser, segundo meu nobre amigo.
"O amor deveria ser desse jeito
Dizem que o amor é cego; outros falam que, por amor, corre-se qualquer risco. Do que se diz e do que se vê, observam-se loucuras-mil na direção desse bem de valor eminentemente abstrato!
E o amor chega, não se sabe de onde, mas vem, e nos pega de jeito! E nos leva ao mundo das fantasias, dos sonhos, das conjecturas, dos devaneios, dos espelhos; das possibilidades e dos impossíveis... Dos encontros e dos desencontros...
O amor se aproxima imperceptível. Alguns poetas atestam que ele é dor; muitos outros o chamam de cupido; há os que o denominam de paixão. Sabe-se lá que alcunha mais poderá ter, o que fica de concreto é que ele existe e nos atinge!
Então o amor, essa substância invisível, que permeia as sinapses; que passa pelo coração e produz taquicardia; que acelera, inclusive, a hematose, a ponto de provocar suspiros extras; que tem livre trânsito no organismo humano, gera valentia e desenvolve também, e não raro, a humildade!
Já vi homem chorar e se fazer de menino, por conta do amor! Já vi menino passar por homem para provar seu amor de principiante! Já vi menina enjoar a boneca por causa dessa mesma coisa! Já vi moça ir de encontro ao pai por acreditar (cegamente!) em seu príncipe encantado!
Mas amar não é fácil! Ao contrário, é um exercício difícil e uma equação de solução rebuscada!
Os que se aventuram, nessa peripécia chamada amor, sem o mínimo de cautela, não poucas vezes se arranham e se machucam! E as feridas às vezes são irreparáveis, aos menos avisados, porque o amor não é brinquedo!
Amar é coisa séria! Não se brinca com os sentimentos dos outros, sob pena de se pagar um alto preço. E o amor é um cobrador por excelência, ninguém escapa de sua contabilidade!
Mas o tempo parece mostrar que melhor faz quem ama, apesar de jamais compreendermos completamente o que venha a ser, de fato, o amor! Ao que se tem, nesta vida ligeira, melhor é amar do que viver no ostracismo da solidão, principalmente quando se absorve a idéia do amor altruísta, com deliberado prejuízo pessoal em benefício do outro, como recomenda o soneto a seguir.
O amor deveria ser desse jeito
Uma forma surpreendente de amor
vê-se na forma onde se faz o pão:
o trigo, ao sair do recipiente oco,
vai de novo se partir, se amassar!
Nosso pão quente de todos os dias,
que dá nome a todos os alimentos,
tem valor muito além da nutrição,
embora nossas idiossincrasias!
É manipulado e levado ao forno;
é posto nas mesas sem distinção;
é substância para matar a fome.
O amor deveria ser desse jeito:
enquanto cresce é modelado e belo;
enquanto se quebra dá vida ao outro."
Ainda pensei em terminar de dar o nó na gravata. Jazia pronto para isso. Contudo, em face de estar com o escroto cheio( falar saco pode escandalizar alguns puritanos), mudei de idéia. Sim,mudei de idéia, por que não?! Mudar de idéia, de opinião, dar a razão ao outro, ser flexível, todas essas coisas permeiam o bom senso e a sabedoria. Falar de amor tem seu tempo, falar de angústia, de saudade, de miséria, falar daquele nó na garganta....tudo tem seu tempo. O ostracismo fruto de uma eugenia lingüística pífia e etnocêntrica consegue fazer-me rir e suscitar-me a ira. Cansado, não da incipiência, mas da insipiência do povo, dou razão a Luís Fernando Veríssimo.
Quando ele fala do povo, ele diz que não pode deixar de concordar com tudo o que dizem do povo. É uma posição impolular, eu sei, mas o que fazer? É hora da verdade. O povo que me perdoe, mas ele merece tudo que se tem dito dele. E muito mais.
As opiniões recentemente omitidas sobre o povo até foram tolerantes. Disseram, por exemplo, que o povo se comporta mal em grenais. Disseram que o povo é corrupto. Por um natural escrúpulo, não quiseram ir mais longe. Pois eu não tenho escrúpulo.
O povo se comporta mal em toda parte, não apenas no futebol. O povo tem péssimas maneiras. O povo se veste mal. Não raro, cheira mal também. O povo faz xixi e cocô em escala industrial. Se não houvesse povo, não teríamos o problema ecológico. O povo não sabe comer. O povo tem um gosto deplorável. O povo é insensível. O povo é vulgar.
A chamada explosão demográfica é culpa exclusivamente do povo. O povo se reproduz numa proporção verdadeiramente suicida. O povo é promíscuo e sem-vergonha. A superpopulação nos grandes centros se deve ao povo. As lamentáveis favelas que tanto prejudicam nossa paisagem urbana foram inventadas pelo povo, que as mantém contra os preconceitos da higiene e da estética.
Responda, sem meias palavras: haveria os problemas de trânsito se não fosse pelo povo? O povo é um estorvo.
É notória a incapacidade política do povo. O povo não sabe votar. Quando vota, invariavelmente vota em candidatos impopulares que, justamente por agradarem ao povo não podem ser boa coisa.
O povo é pouco saudável. Há sabidamente, 95 por cento mais cáries dentárias entre o povo. O índice de morte por má nutrição entre o povo é assustador. O povo não se cuida. Estão sempre sendo atropelados. Isto quando não se matam entre si. O banditismo campeia entre o povo. O povo é ladrão.O povo é viciado. O povo é doido. O povo é imprevisível. O povo é um perigo.
O povo não tem a mínima cultura. Muitos nem sabem ler ou escrever. O povo não viaja, não se interessa por boa música ou literatura, não vai a museus. O povo não gosta de trabalho criativo, prefere empregos ignóbeis e aviltantes. Isto quando trabalha, pois há os que preferem o ócio contemplativo, embaixo de pontes. Se não fosse o povo nossa economia funcionaria como uma máquina. Todo mundo seria mais feliz sem o povo. O povo é deprimente. O povo deve ser eliminado.
Demagogia também é coisa inventada pelo povo. Democracia? Dizem ser o governo no qual o povo tem o comando. Depois ainda perguntam porque nada funciona.
Contudo, creio que Veríssimo pegara pesado demais. Afinal, o povo é previsível sim.
A quase todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 2:52 PM
O título seria uma gíria
made in Casca de Noz às 2:03 PM
Quarta-feira, Novembro 12, 2003
Nó
Acredito que quase ninguém vive uma vida toda sem dar pelo menos um nó. Sim, nó. Nem que seja um nó cego enquanto não se sabe amarrar um cadarço quando criança. Ou um nó pra amarrar pamonha. Digo pamonha, não "pamonhas". Nó pra amarrar o cabelo, pra cozer um pedaço de pano, emendar um fio. Alguns meninos mais peraltas, as avós falam que o "netinho é inteligente, falta dar nó em pingo d'água". Conheço essa "inteligência". Só não a quero pra meus adoráveis filhos.
Pois, enquanto sentado naquela cadeira desconfortável, o ilustre mestre falava de como se dá nó. Coisa que sabia desde menino. Mas, segundo ele, o nó consiste no entrelaçamento feito entre as extremidades do fio a fim de uni-las e fixá-las. Oh, que conspícua definição! E disse ainda que o nome cirúrgico se classificava segundo alguns critérios. Basicamente, deslizante e não-deslizante. Sinceramente, falar dos nós de Pauchet com indicador, Pauchet com dedo médio, Pauchet bi-manual, de técnica mista e tantos outros, seria chato e, provavelmente, do interesse de poucos. Prefiro falar-lhes daquele nó na garganta. Não aquele dos corações apaixonados, mas daquele que suscita paixões quando bem dado.
A maioria dos homens não conseguem dá-lo. Daí ficam dependentes de amigos, vizinhos, esposas ou algum outro ¿bofe¿ do gênero. Há alguns anos, aprender a dar nó em gravata era um ritual que marcava o fim da infância e o ingresso do menino na adolescência. Como fazemos parte da contemporaneidade, primeiro se ensina transar, depois tirar carteira de habilitação(pra alguns, porte de arma). Se bem que transar qualquer animal, por mais oligofrênico que seja, faz por extinto e tirar carteira de (in)habilitação não é difícil de se encontrar picaretas que a vendem à preço de bananas.
Pensando nos tarados compulsivos (isso que eu chamo de pleonasmo) e nos motorizados foras da lei, resolvi dar o nó compassadamente na gravata. Talvez assim, as madames de plantão não tenham que ter mais um trabalho com os marmanjos dentro de casa.
Conta a história que a palavra gravata deriva de "croata". Tudo começou quando, no século XVII, o monarca francês Luís XIV encantou-se com o efeito de uma tira de cambraia branca usada por soldados croatas acampados nos arredores de Paris. A tira era amarrada em volta do pescoço de forma elegante e usada como distintivo militar. Luís XIV, também conhecido como o Rei-Sol, ordenou que o alfaiate da corte adaptasse um pedaço fino de pano branco à gola de seus uniformes. A novidade agradou ao povo francês que, com o passar do tempo, inovou o jeito de usar. Em vez de deixar a tira aberta sobre o peito, amarrou-a em volta da gola.
Ao longo de dois séculos, o que de início era apenas uma tira de tecido se transformou em acessório indispensável do vestuário masculino, ganhando um corte específico e tecidos nobres como a seda, o linho, a musselina e a renda.
A revolução cultural do final dos anos 60 levou a maioria dos homens a abandonar o uso cotidiano da gravata. Na década passada, as gravatas ganharam nova força e voltaram à moda com os americanos jovens e bem-sucedidos no mercado de ações, os yuppies, simbolizando uma nova casta de vencedores.
E no ritmo da volta desse objeto, que julgo de tamanha elegância, proponho não só aos marmanjos, mas também àqueles estão ensaiando em frente o espelho como se coloca a camisinha de Vênus que atentem para o fim do sofrimento. Aos desavisados, chamo a atenção que o que vier adiante não serve pra colocar na camisinha de Vênus. Pois esta é de látex, destinada à exercícios físicos aeróbicos. E camisas pra praticar esportes não se usam gravatas.
Em posts seguintes, colocarei outras dicas acerca do uso de gravatas. Nesta ocasião, aterei-me ao nó mais simples, o nó americano. Também chamado de nó esportivo ou Four-in-hand. Particularmente, o uso cotidiano não é muito freqüente. É de um visual mais discontraído, indicado para colarinhos mais estreitos e golas pouco pontudas. Alguns desfiles de moda costumam usá-lo por ser bem prático, leve e de pouco volume. Um nó bastante fácil e, numa festa mais fashion,é uma boa pedida.
Vamos a ele:
1. Levante o colarinho da camisa e passe a gravata em volta do pescoço. A ponta larga deve ficar sempre do mesmo lado de sua mão dominante. Isso quer dizer que, se você for destro, a ponta mais larga deve ficar do lado direito do corpo. Se for canhoto, do lado esquerdo. Com a gravata já pendurada no pescoço, puxe a ponta mais larga, de modo que ela fique duas vezes mais baixa que a ponta mais estreita.
2. Passando a ponta larga por cima da ponta estreita, dê uma volta completa. Com a outra mão, segure as duas pontas onde elas se cruzam.
3. Passe novamente pela parte da frente.
4. Passe a ponta larga por dentro do colarinho.
5. Vire a ponta para baixo, passando por dentro do nó. Com jeito, puxe a gravata para baixo, ajustando o nó. Puxe a ponta estreita e leve o nó junto ao colarinho. Abaixe o colarinho e confira se todo o tecido da gravata em volta do pescoço ficou escondido.
6. O nó está pronto.
A quase todos, um elegante abraço.
made in Casca de Noz às 2:55 AM
Terça-feira, Novembro 11, 2003
Naquele sono profundo que dantes descreva em "Intenção", houveram sonhos. Lembro-me bem, até li algo que Rui Ricardo escrevera. Tudo meio embaçado, confuso, mas deu pra ler. Era algo mais ou menos assim:
"Mesmo sabendo que não gostavas...
Era em ti que eu confiava.
Dizia tudo o que se passava.
Mas um dia tudo em nós mudou.
Disse que te amava e tudo piorou.
De mal não fiz nada e tu também não.
Dá-me a tua amizade ou a tua mão.
Assim é que não dá para viver.
Dá-me uma resposta, pois estou a sofrer.
Pergunto-me todos os dias se vais ser para mim,
Ou será que este pesadelo nunca vai ter fim.
Não encontro resposta por mais que procure,
Mas não vou desistir por mais tempo que dure.
Amo-te do fundo do meu coração.
Posso até estar a ser um parvalhão.
O que é preciso para gostares de mim?
Diz-me só que eu serei assim.
Minha loucura. Minha paixão
Dá-me um beijo e dá-me a tua mão
Para passear comigo à beira-mar,
Porque tenho muito amor para te dar.
Mesmo sabendo que não gostavas
Entreguei o meu coração e perdi
Uma melhor amiga
Como nunca antes vi."
Então passei o dia todo lembrando de Caetano, mas com Peninha cantando "Sonhos".
"Sonhos
Tudo era apenas uma brincadeira
E foi crescendo, crescendo, me absorvendo
E de repente, eu me via assim, completamente seu
Vi a minha força amarrada no seu passo
Vi que sem você não há caminho, eu não me acho
Vi um grande amor gritar dentro de mim,
Como eu sonhei um dia
Quando o meu mundo era mais mundo,
E todo mundo admitia
Uma mudança muito estranha
Mais pureza, mais carinho
Mais calma mais alegria no meu jeito de me dar
Quando a canção se fez mais clara e mais sentida
Quando a poesia realmente fez florir em minha vida
Você veio me falar dessa paixão inesperada por outra pessoa
Mas não tem revolta, não
Eu só quero que você se encontre
Ter saudade até que é bom,
É melhor que caminhar vazio
A esperança é um dom que eu tenho em mim...
Eu tenho, sim
Não tem desespero, não
Você me ensinou milhões de coisas
Tenho um sonho em minhas mãos
Amanhã será um novo dia
Certamente eu vou ser mais feliz..."
Na verdade, esses "Sonhos" todos parece-me não terem passado de uma soneca.
A quase todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 7:10 PM
Intenção
Acordei de um sono profundo
o dia queria começar.
Dei uma esticada,
pois tinha que me levantar.
Logo me veio a idéia
de como hoje eu iria postar.
Com um pouco de cefaléia,
pensei em Panacéia,
meu doutor visitar.
Sentei brevemente
respondi uma corrente.
Numa metalingüagem
da nossa gente,
compus um poema
e fui, então, me lavar.
Agora mais limpo,
boca, corpo e coração,
saio para meu dia ganhar.
Então, quando dele retornar,
talvez melhor, talvez maior
Com certeza, em todos os sentidos,
com o meu próximo,
um novo ensinamento
irei complartilhar.
Ismael Alexandrino
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 7:59 AM
Segunda-feira, Novembro 10, 2003
"Tempo para tudo
Tudo tem o seu tempo determinado,
e há tempo para todo propósito debaixo do céu:
Há tempo de nascer, e tempo de morrer.
Tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
Tempo de matar, e tempo de curar;
Tempo de derribar, e tempo de edificar;
Tempo de chorar, e tempo de rir;
Tempo de prantear, e tempo de saltar de alegria;
Tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras;
Tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
Tempo de buscar, e tempo de perder;
Tempo de guardar, e tempo de deitar fora;
Tempo de rasgar, e tempo de coser;
Tempo de estar calado, e tempo de falar;
Tempo de amar, e tempo de aborrecer;
Tempo de guerra, e tempo de paz ."
Outrora, ouvi com apreço um confrade num breve, porém, edificante discurso. Ronaldo Lindório, doutor em antropologia, contara uma experiência que há anos alguns passara.
Estava na África e, por uma causa bastante nobre, fora incumbido de mapear uma região com intenção de ter acesso a uma tribo indígena. Levava consigo seu ideal e a informação de que se tratava de uma tribo bastante hostil. Aos olhos de muitos, uma aventura desnecessária.
Foi levado ao encontro de dois senhores que lhe serviria de guia. Na busca de maiores informações sobre a tribo, descobriu-se que ela ficava na margem de um dado rio, somente. Há de se convir que não fora uma informação muito precisa, mesmo porque é comum qualquer povo se estabelecer próximo de leitos d'água e, também, tratava-se de um rio bastante longo. Portanto, a informação obtida não ajudara muito.
Amanhecendo, Ronaldo e os dois guias, colocaram as botas, as malas nas costas e embrenharam savana a dentro. Andaram o dia todo e nada de encontrar aquele povo. Não por acaso, no ocaso decidiram parar e descer as mochilas. Ali dormiriam. Andar à noite onde não se conhece não seria uma atitude cônscia. Noite escura, fria, só ouvia-se barulho de bichos e nada mais.
Antes do arrebol, levantaram e seguiram viajem. Sol a pino, andaram quase o dia todo. Até que encontraram uma maloca. Mas não era a que estavam procurando. A exaustão já tomava conta daqueles homens. Sem condições de seguir viajem devido ao desgaste físico, os dois guias disseram a Ronaldo que não seguiria com ele além dali, pois estavam impossibilitados. Ali dormiram e o jovem, animado por demais, disse que seguiria a viagem mesmo só.
Botas calçadas, mochila nas costas e rompeu-se o crepúsculo matutino. Região de planície, mesmo com sol ardente, estava totalmente alagada por ser época de chuva. Andava com água acima dos joelhos sempre, às vezes desequilibrando pelo peso da bagagem. O dia foi terminando e jovem rapaz começou pensar onde dormiria. Afinal, numa savana totalmente alagada ficava difícil. Tinham as árvores, mas as cobras gostam de nelas ficar pra dormirem. Como na região tinham muitas, não queria arriscar a concorrência por um galho. Andando mais um pouco, Ronaldo viu uma pedra acima um pouquinho acima da água. Aquela seria sua cama naquela noite. Estendeu a toalha e deitou em cima da pedra. Noite escura, fria, só ouvia-se o barulho de bichos e nada mais. Até que, não bastasse, começa a chover forte durante a madrugada. Aquilo postara-se literalmente como uma gota d'água. Naquele pântano, escuro, cheio de bichos, frio, debaixo de chuva, com fome, extremamente debilitado fisicamente, sem forças pra prosseguir, Ronaldo pensou o que estar fazendo ali. Talvez fosse loucura da sua cabeça. Afinal, podia muito bem estar em casa, quentinho, barriga cheia. Coisa que um doutor em antropologia, que já havia recebido vários convites pra ensinar nas melhores universidades sobre o assunto, poderia usufruir plenamente.
Breve momentos de reflexão e...ele não ia voltar dali. Já tinha caminhado muito rumo ao seu objetivo pra desistir. Com uma força divina, seguiria caminho ao amanhecer. Dia claro, cessada a chuva, botas calçadas, carga nas costas, e então, salta-se da pedra pântano a dentro. Caminhado não mais que trinta minutos, viu algumas garças ao longe levantarem vôo. Alguma coisa havia feito com que elas voassem. Aproximou. Era sim a procurada tribo.
Ali fez todo seu trabalho projetado, realizou-se. Contudo, não desistiu. Simplesmente, acreditou no seu ideal, lutou pelo seu objetivo e, confiando que algo divino poderia sustentar-lhe, soube esperar seu tempo.
Diante disso, consigo olhar pro horizonte e, mesmo que às vezes escuro, nebuloso, distante, arredio, seguir o caminho. Mesmo que, às vezes, pensando desanimar, cansado de caminhar, cansado de sofrer, de chorar, de desilusões, o tempo há de chegar. Quem preconizou isso é O mesmo que colocou o ideal no coração daquele antropólogo, é O mesmo que permitiu os dias cansativos, O mesmo que permitiu a chuva num momento de angústia. Contudo, também é O mesmo que fez secar a chuva, é O mesmo que fez clarear o dia, O mesmo que suscitou novo ânimo. E, por mais que intempéries aconteçam, ELE é O dono do tempo e também O mesmo que faz as garças alçarem vôo, .
Ismael Alexandrino.
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 2:29 AM
Sábado, Novembro 08, 2003
Já não sinto muito
Depois de algumas mais de vinte horas sentado lendo "hieróglifos", nada melhor que dormir uma hora. Exatamente uma hora. Afinal, faltavam apenas duas para a prova. Uma dormiria e a outra seria perdida em alguns quilômetros de trânsito caótico. Alguns dizem infernal, não posso afirmar. Afinal, por mais que lá deva ser tumultuado, não creio que tenha tanto barulho de buzinas como na capital pernambucana. Se não primasse pela lisura de atos e postura cidadã, acredito que andaria com o dedo médio sempre levantado.
Passado as duas horas e terminada a bendita avaliação, só pensava no ato final: dormir. Se fosse um freudiano convicto, talvez imaginasse um orgasmo. Mas ao pai tarado da psicanálise, dou-me ao luxo de ignorá-lo conscientemente. Aqui, porém, não o exalto de forma inconsciente. Quanto ao subconsciente já é querer demais, só Freud explica.
Chegando em casa, depois de despido e pronto pra começar o ato, eis a "ejaculação precoce" : Lembrei que tinha dentista. Neste caso acho que é "ejaculação postergada por aquele não ser o momento". Novamente, por causa da tal postura cidadã, não proferi nenhuma palavra indecorosa à nobre alma.
Quando voltava, à medida que aproximava-me da minha alcova, vislumbrava o ato final. Abri a porta, e a camareira já tinha deixado as roupas lavadas e passadas. Mais um pouquinho de preliminares, comecei a guardá-las. Meia azul marinho entre a cinza escuro e a preta, bermuda de algodão dobrada na direita, bermuda de tecido sintético por cima, calção de jogar bola mais no cantinho, calças jeans à esquerda, camisas e camisetas...Bem, camisas e camisetas e ainda uma calça de microfibra, depois de respirar fundo, todas de volta à sacolinha. Enganara-me. Quatro "quinas" diferentes em cada perna da calça, duas longitudinais e duas transversais; as camisas e camisetas, pareciam ter sido tiradas de dentro de uma garrafa. Sinceramente, nada daquilo poderia ser considerado como passado. Sacolinha de "repassar" cheia e, então, o gran finale. Afagado pela cama, dormi. Apaguei, na verdade.
Recobrada minha consciência, lembrei de uma conversa há poucos dias com um amigo. No meio daquele engarrafamento, comentava com Benhur sobre o real significado de algumas palavras hoje utilizadas nos vários cantos do país com praticamente o mesmo sentido. Boçal, fresco, perfeccionista, "cri-cri", chato, exibicionista, pedante, e coisas do gênero. Naquela ocasião ativemos mais ao sentido de fresco e perfeccionista.
Ainda comentei como os avessos tornaram-se o usual, o apreciável. Chegar no horário marcado, usar linguagem adequada para o contexto, fazer trabalhos que obedecem critérios prévios, apresentá-los de forma descente, ter também uma postura descente, um traje apropriado pra cada ocasião. Tudo isso agora virou frescura. Enquanto tais medidas deveriam ser adotadas por todos, estes se relaxam e, quem as adota, são frescos, perfeccionistas, boçais. Novos conceitos, nova moda, novos indivíduos. Ausência de caráter , ausência de bom senso, ausência de personalidade.
Sinto pela camareira, coitada. Mas o fato é que não estou na moda. Quando ela retornar encontrará a sacolinha cheia de roupas com um gentil "favor repassar". Também atentarei-me em por um "favor não incomodar" na porta pois, neste momento, enfim, estarei, não freudianamente, num gozo total.
Ismael Alexandrino.
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 9:54 AM
Quinta-feira, Novembro 06, 2003
A nobre arte de curar
Ao se falar de métodos de cura, tem que se ter a noção que nem sempre fala-se de medicina. Portanto, não cabe na discussão a vituperação de quaisquer ciência ou atitude que possa de algum modo promover a cura de alguém.
É sabido que a medicina atual, principalmente a ocidental, encontra-se altamente arraigada e com os pés calcados num tecnicismo positivista voltado à erradicação de doenças. Contudo, uma visão menos segmentada do ser humano deve ser analisada pelo médico que se propõe a cuidar de um doente. Digo "cuidar" do doente por achar tal verbo com uma semiótica mais completa do que o "curar". Cuidar refere-se a zelar pelo bem-estar ou pela saúde de alguém. Enquanto que curar detêm-se no fato de recuperar a saúde.
Concerne ao médico, o entendimento e compreensão de que muitas, senão a maioria das doenças, apresentam um viés psicológico e, como tal, a terapêutica não está atrelada somente à administração de drogas, principalmente as alopáticas. O que se percebe é uma discriminação e preconceito com relação aos diversos métodos de cura. Tais atitudes devem ser revistas pois sabe-se que desde os tempos longínquos praticamente toda civilização utiliza de algo que foge ao científico, ao empírico, para se obter a cura. Magias, mitos e elementos religiosos, tudo se unia de alguma forma à ciência, adaptando-se à cultura local para se curar um enfermo. Daí vieram muitas técnicas e costumes que hoje são empregados como, por exemplo, cromoterapia, yoga, heik, acupuntura, fitoterapia, dentre outras.
Assim, de uma forma holística, depreende-se que, muitas vezes, controlando o psicológico do indivíduo, harmonizando-o espiritualmente e até mesmo socialmente, obtém-se a cura alcançando o pleno cuidado do paciente. É importante que o paciente tome consciência do processo do seu tratamento aderindo-se a ele, tornando-se agente. Daí mais uma importância dos métodos alternativos; sendo menos agressivos ao organismo, torna-se mais fácil a adesão.
Em suma, percebe-se que a nobre arte de curar extrapola os ensinamentos da academia médica e, por conseguinte, os limites do empirismo científico. Posto feito, ao cuidar de um paciente, a individualidade de cada um deve ser analisada, bem como respeitada as diversas terapias .
Ismael Alexandrino.
E pensando nisso, imaginei "Tratando um coração".
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 9:20 PM
Nem em prosa, nem poesia, mas uma ilustrada crônica do dia.
Depois da tempestade há bonança
Há muito ela já se mostra cansada. Alguns a chamam de bunda, outros de bumbum. Há aqueles capitalistas que chamam-na de poupança e, ainda os que preferem nádegas. Gosto de glúteo máximo! Com fibras transversais apenas no interior e, estas sim, bem definidas.
Mas o meu encontra-se debilitado, coitado. Cansado, pede um fôlego. De vez em quando até permito um suspiro mais profundo, confesso. Mas o ambu já não está com 100% de oxigênio.
Os olhinhos, estes já estão confundindo "q" com "g" facilmente. Gosto das páginas branquinhas recheadas de letras minúsculas como as da bíblia. Mas final de semestre, semana de avaliação, cursos ora sim ora não...ufa! Chegou minha TPM semestral! Isso mesmo. Imaginem ter TPM sem ovular, é horrível, acreditem. Não adianta tomar Buscopan, Ponstan...o jeito é ficar meio "tan-tan".
A cara dele que, por sinal mais parece uma placenta lacerada e do avesso, cansei de ver.
Coração sangrando?!
O meu já cansou de chorar!
Olho na janela, a maré já não é a mais bela. E eu nem pude aproveitar.
Sexta-feira que chegue logo. Pelo menos ela, pra eu poder descansar. Sairei à pé ou de condução, de barco, carro ou avião.
Quero bater um vôlei minha habilidade exercitar. Não me importo se no meio de amadores ou profissionais, quero mesmo é jogar.
.
Vou sair tranqüilo, sem ter hora pra voltar. Posso até levar alguém, desde que também não tenha horário marcado.
Quero mesmo é relaxar. Vou cair na real, vou me tocar. Deixarei a maldita cadeira que ultimamente vive a me empurrar toda as vezes que nela sento. Não agüento mais, tenho que ir, tenho que descansar o "máximo" por um momento.
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 12:37 AM
Terça-feira, Novembro 04, 2003
Ontem ainda tentei postar. Texto e contexto prontos, e o provedor me virou a cara. Não podendo esperar ele recobrar a consciência, montei no meu cavalo a galope, "sangrei a anca do tal" e retirei-me para minha Casa de Noz.
Então, há pouco, numa aula de fisiologia da dor, eis que me veio uma mensagem. Senti um nó na garganta, um lirismo acometeu-me. Ainda lembrei de Vinícius de Morais quando em fidelidade dissera ser a solidão o fim de quem ama.
Soneto de Fidelidade
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive;
Quem sabe a solidão, fim de quem ama,
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama,
Mas que seja infinito enquanto dure!
Vinícius de Morais
E a doutora continuou a falar e, enquanto falava da morte celular, escutei Pablo Neruda a um poema recitar. Lembro bem que ele falava de morte, uma insepulta que revive só de ver o outrem sofrer.
Se morro
SE MORRO sobrevive-me com tanta força pura
que despertes a fúria do pálido e do frio,
de Sul a Sul levanta teus olhos indeléveis
de sol a sol que soe tua boca de guitarra.
Não quero que vacilem teu riso nem teus passos,
não quero que pereça minha herança de alegria,
não chames a meu peito, estou ausente.
Vive em minha ausência como numa casa.
É uma casa tão grande a ausência
que passarás nela através dos muros
e penderás os quadros no ar.
É uma casa tão transparente a ausência
que eu sem vida te verei viver
e se sofres, meu amor, morrerei outra vez.
Pablo Neruda
Nem de morte, e não somente da angústia de quem vive. Eis que somatizei todos aqueles conhecimentos ali adquiridos e não me contive. Deixei o bizel de lado, peguei caneta e papel. Na verdade, queria descrever uma rosa, mas o que me veio foi uma "Sensação dolorosa".
Ainda fora na segunda. Degustávamos uma deliciosa macarronada e proseávamos uma infinidade de assuntos. Trocamos idéias, boas risadas, conhecimentos e experiências. E nessas trocas todas, sinceramente, acho que levei vantagem.
Naquela ocasião, meu imortal amigo ainda indagou-me sobre qual a maior invenção do homem até hoje. Pensei em coisas simples. Mas, naquele momento, não contemplei a visão do grande poeta. Então ele fez referência a uma de suas obras primas. Já com o "Balanço" praticamente parando, lembrou-me do "zero". De fato uma invenção e tanto para uma coisa que não existe na essência. Não tentem encontrá-lo, pois não conseguirão. Não me refiro simplesmente à bolinha antes ou depois de algum algarismo, mas ao seu real significado. Também não sei como o represento em notação romana. Se alguém detiver esse conhecimento, fico grato que comigo possa compartilhá-lo.
Raciocinando um pouquinho sobre a assertiva do nobre confrade (assim nos tratamos carinhosamente), entrei no mundo dos irracionais. Lembro, sem muito esforço, de ter comentado com Avaniel sobre alguns deles: Neper, Euler e o mais belo deles, o número de ouro. Comentei com ele sobre as peculiaridades que podemos observar nos dois primeiros, mas foi ao número Áureo que detive-me.
A fim de pô-lo a par, disse que quando uma linha segmento é dividida em duas partes de tal modo que a razão entre o segmento inteiro e a parte maior é igual à razão entre a parte maior e a parte menor, essa relação é chamada relação áurea, ou o número obtido é o número de ouro. Não fazemos idéia de quão próxima de nós é essa relação. Para encontrá-la na natureza, basta olhar para a sua mão. As falanges guardam entre si a proporção áurea, bem como inúmeras outras partes do corpo. Um olhada num pequeno inseto ao redor também revela isso na sua cabeça, tórax e abdome. A medida que a voltinha do caracol diminui, cada nova circunvolunção é proporcional ao golden number. O monitor de televisão apresenta a tela também proporcional ao número áureo. Na seqüência de Fibonacci, que pode ser observada na reprodução de coelhos, ratos, folhas de plantas, a divisão do número subseqüente pelo anterior também aproxima-se do número áureo. Grandes obras arquitetônicas pelo mundo afora e outras tantas advindas das mãos de Oscar Niemyer na arquitetura de Brasília guardam a proporção áurea com muita elegância.
A observância deste número irracional tão sui generis , comumente está atrelada ao conceito de belo. Os mais belos e cobiçados violões celos e violinos guardam com rigor essa medida. Os corpos que se destacam como padrão de beleza, resguardando as variantes de cada época, aproximam-se as medidas da áurea proporção. Diz-se que atrás do quadro de Monalisa, Da Vinci tinha vários rabiscos de cálculos buscando a perfeição do rosto eternizado pelo sorriso indecifrável. Muitos acreditam que o Grande Arquiteto do universo, DEUS, usou o número áureo como medida padrão. Incluo-me neste grupo que vislumbra a medida divina.
Talvez numa próxima oportunidade, eu me sente num "Balanço" sustentado por uma corda catenária e, neste mundo de irracionais, passe a entender A matemática do poeta.
Ismael Alexandrino.
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 3:00 AM
Sobre mim e meu cantinho
Rebentei, mas não explodi. Numa manhã de 1983, em Goiás já se tinham passado 26 dias do mês de julho. Não me lembro muito bem como foi. Aquele cara de touca que não queria me cheirar, tinha nojo de me pegar e ainda me virava de cabeça pra baixo. Fez aquele momento cair no esquecimento. Perambulando pela vida, caí em Recife, onde, dentre outros hobbies, curso medicina. Neste recinto, nunca minto. La Vita Mia é uma generosa cria. O que faço quando posso, o que penso quando penso, o que sonho e projeto quando acordo. Hobbies conhecerão por aí fazendo parte daqui. Puxe uma cadeira, peça um foundie, tire as rusgas da testa, mas não pare por aí. Vamos prosear, não se acanhe em se expressar. À vontade pode ficar, pois respeitado será quando falar. No mais....Carpe Diem and Carpe Vita!