Enquanto o mestre falava do uso dos afastadores numa discussão sobre técnica cirúrgica, divaguei um pouco. Ao contrário do caminho natural da existência, caminha o cirurgião...invade o organismo, órgãos, tecidos, num movimento retrógrado, perigoso.... Daí lembrei de Clarice Lispector e de uma "Condição Sine qua non"
A montagem desta imagem à cima com minha boca foi feita no editor da Danynha
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 10:19 PM
Terça-feira, Outubro 28, 2003
E agora José?!
Um dia estava lá sentado meditando, procurando respostas pra esta grande piração : morte, guerra, destruição....AIDS, câncer, solidão! Levantei. Não encontrara respostas. Mas não me abati por causa da minha ignorância, sabia que tinha outros tão ignorantes quanto o pobre pensador.
O tempo passava e estavam lá. Ignorantes, todos indo e vindo, lutando por algo que não sabiam muito bem o que. Alguns, mais conscientes, e ainda sim ignorantes, diziam que era a vida. Não descordava deles, pois minha néscia condição não permitia. Arrebóis iam e vinham. A piração, contudo, não dava tréguas. Levantava, tomava um café(que nem tinha café), e ia andando pelo caminho...., não mais meditava, fora possuído pela rotina masturbatória da vida. Aquele ir e vir sem intempéries me proporcionava o gozo de se viver.
Noutro dia descobri que há um refinado povo que faz tempo não é ignorante. Tudo eles sabem, tudo conseguem. Ai que inveja! E é um povo numeroso, distinto, autárquico. Só não são muito sadios. Muito obesos, coitados! Morrem de infarto, ingestão descontrolada de drogas, tomam aspirina como se fosse mais um biscoitinho no lanche. Já tive o dissabor de ouvir de alguns simpatizantes: "pelo menos não morrem de fome !". Tive que concordar.
Há pouco os vi na televisão, com ator principal(dizem que é o chefe daquele povo) desfilando com escolta e tudo.....,heróis de fato. Cineastas de primeira classe, regozijam-se nisso. Muitas vezes incorporam no dia-a-dia cenas que até Spilberg hesitaria, afinal, o rei das bilheterias de cinema nem gosta muito do espaço urbano. Prefere voltar aos tempos longínquos a retratar símbolos da ostentação contemporânea sendo destruídos por objetos voadores não identificados a tempo. E viva o ator principal! Sr. Zé, ou Jorge ...sei lá! Só sei que são os melhores. Grande povo, grande nação, nem morrem de fome. São muito espertos pra isso. Só não são tão caridosos, disseminam a fome entre os ignorantes. Mas, ainda bem que Isaac Newton postulou sua 3ª lei. Quando o professor no colégio demorou na 2ª, fiquei instigado. Ufa!!! Até que enfim veio a 3ª ,Ação e Reação, dizia aquela figura delgada(ele não era descendente do sábio povo). Custei a aprender. Mas funciona direitinho, até parece lei mesmo, pensei. Outros tolos, que também compreenderam, foram além. Influenciado pelo pré-iluminista John Locke, Adam Smith afirmava que o mercado reagia às ações sofridas. Não errou, apesar de não se mensurar o perigo iminente de um mercado revoltado.
Parece que o "Seu Zé" não estava na aula aquele dia. Era um 4 de julho, talvez pensasse que tinha passado direto. O mestre me dizia que "ninguém" tinha ido, só eu. Prova final é fogo. Mas, aprendi muito aquele dia. Até depois posso falar pro "Seu Zé" da tal lei.
Ação e Reação! Diria a ele que ela funciona mesmo, em todos âmbitos. Com relação ao povo que se ofende, às nações que se humilha, às pessoas que se sub-julga. Reações imediatas, retardadas, fracas, fortes, com atritos ou não, reações químicas, nucleares e até mesmo biológicas. Tudo pode acontecer. Afinal, não se está operando em uma caixinha hermeticamente fechada mantendo as condições normais de pressão, muito menos respeitando as propriedades físicas dos reagentes.
Ismael Alexandrino
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 11:57 PM
Domingo, Outubro 26, 2003
Confesso que não queria, mas briguei com a prosa. Como sou amante da poesia, resolvi passar o final da semana com ela. Com um instrumento que me remonta a um passado longínqüo, ponho-me a escrever.
Então, trazido do cotidiano de uma Boa Viagem, eis um "Auto-Re-trato":
Recriado, começo a cantar uma "Canção pra toda vida"...
Envolvido pela canção, brota-me uma vontade profunda de retirar-me pra minha "Alcova"...
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 5:53 AM
Sexta-feira, Outubro 24, 2003
Sou negro.Que me provem o contrário!
Conversando com uma amiga que prezo muito, ela me falava do vestibular que está chegando e coisas do tipo. Narinha fará a prova por treino apenas, pois a secundarista não concluirá o ensino médio este ano. Uma atitude que aconselho por experiência própria. Alguns êxitos me trouxeram bastante tranqüilidade para o momento em que seria definitivamente avaliado. Creio que a reprovação neste caso também é bastante útil na medida que aponta e direciona onde estão as falhas. Também não deixa de ser um programa pro final de semana que, confesso me instigava bastante, as provas eram um hobbie..
Neste contexto, veio-me à tona, um episódio acontecido no último vestibular. Ao passar casualmente na frente da televisão, vi o jornal global dando uma notícia que, creio, instigou boa parte da população. Naquela ocasião, foi reportado que a Universidade Estadual do Rio de Janeiro divulgara o resultado do primeiro vestibular com cotas.
Há muito, tem-se discutido o estabelecimento de cotas como critério de seleção de várias atividades. A educação, inserta nesse processo, tem sido alvo direto desse foro aberto. São estudantes secundaristas, universitários, professores, reitores de universidades e políticos que se debatem paulatinamente. Recentemente, vimos Ciro Gomes, respaldado pelo grande formador de opiniões do nosso país, Roberto Freire, defender o estabelecimento de cotas fixas para o ingresso de negros nas universidades. Tais posturas, tanto de Ciro quanto de Freire, cabem uma análise, no mínimo, cautelosa.
É fato que a maioria dos acadêmicos no Brasil não são de cor negra. Isto, porém, está atrelado a problemas na conjuntura brasileira dentre os quais se enquadra a segregação racial, o que não nos dá direito em obliterar a discussão dialética do sistema em oposição ao positivismo vigente. Se os altos cargos na carreira executiva não são ocupados por negros, não podemos afirmar de forma simplista que é por eles não serem competentes, pois há mecanismos de se barrar pessoas que visam determinados cargos em alguma empresa que podem excluir critérios de aptidão, inescrupulosamente. São nas entrevistas, e não em provas de conhecimentos específicos que muitas pessoas são barradas por gerentes, diretores, presidentes e donos de empresa. Oxalá DEUS os julgue segundo suas concupiscências !
Percebe-se claramente que a segregação ¿verde-louro¿ traz consigo toda uma tônica que reflete a acomodação hedônica da condição social. O indivíduo contenta-se com o nascer em berço não-esplêndido, tão somente, como fruto de uma vontade divina e, como tal, ele não tem que procurar mudar, não se desenvolve uma perspectiva de progresso de vida (aqui não me refiro ao progresso financeiro somente). Estende-se essa análise à condição racial aliada à social e..... o pensamento processa-se da mesma forma. Tudo isso, alimentado por políticas de ¿pão e circo¿, que tolhem a possibilidade de quebrar esse paradigma.
Ao se falar de estabelecimento de cotas, contudo, não se trata do cerne, da raiz, da origem, do berço do problema. Ao se falar de estabelecimento de cotas no vestibular para negros e estudantes da rede pública, fala-se em uma degrau bem acima, sem olhar os demais, muito menos galgá-los com vista a uma ruptura sólida do sistema. Tenta-se justificar a falência de toda uma estrutura educacional, mudando a conjuntura de um processo seletivo. Não se defende aqui o vestibular como o mecanismo ideal de ingresso a uma universidade, mas que no Brasil de hoje, é o mais cônscio. Diria, romanticamente, o melhor. Se fosse Aluísio de Azevedo, talvez diria o menos pior. Mas, deixemos um pouco de lado o prazer da teoria literária e atentemo-nos às curiosidades da referida avaliação da UERJ. A cota que seria a avaliação normal, teve como ponto de corte no curso de medicina 92%, enquanto que a dos justificados pelo preconceito pouco superou os 60%. Quantas pessoas mais bem preparadas para o ingresso e pleno desenvolvimento dentro de uma universidade deixaram de ser aprovadas? Será que os aprovados que revelaram um conhecimento deficitário conseguirão suprir tal disparidade depois de ingressarem no curso, como justificou um dos dirigentes? Quem serão esses mesmos profissionais daqui a alguns anos? Será que quando se procura a prestação de um serviço é pela qualidade do serviço ou pela cor de quem o presta?
Aceitar passivamente decisões como estas é assumir o preconceito que sempre existiu no país e, até então, era camuflado. É imputar ao negro a condição de inferioridade de se disputar uma vaga a altura de qualquer outro cidadão, é fomentar o ócio, é fomentar o ódio. Que se lute por uma educação de base que modifique e credite a estrutura do ensino a uma forma digna para todos, ou que se desenvolva a ciência tornando-a apta a definir quem é negro ou não na miscelânica sociedade brasileira.
Ismael Alexandrino
A todos, um grande abraço
made in Casca de Noz às 2:33 AM
Quarta-feira, Outubro 22, 2003
Humanizar um bicho
Há mais de meio século, Manuel Bandeira vira um bicho. O mundo ainda soprava a fumaça da primeira guerra mundial, Hitler levantava a suástica da eugenia como forma de terceira via. Mussolini, o fascismo defendia, enquanto Nova Iorque definhava com a maior crise que o capitalismo já viu. No Brasil, paulistas e mineiros tomavam café-com-leite, enquanto Luís Carlos Prestes estimulava revoltas políticas e sociais nos quatro cantos do país minando as estruturas da Velha República. Idealistas, porém, elitistas; golpistas, contudo, reformistas. O tenentismo, então, revelara-se prova inconteste de um movimento de difícil entendimento, explicação e razão de ser.
Em meio a essa balbúrdia, num modernismo que acabara de florescer, ainda em sua primeira fase, Bandeira se valia da poesia pra descrever a realidade do país de forma eufêmica até. Seu lirismo, na descrição humana, não só traduzia o contexto de miséria vivido no país, como já antevia futuros períodos indecorosos.
Na imundície do pátio, ainda há pouco, não sabia o que via. Ele não catava comida e detritos. O pátio que se encontrava era muito longe do refeitório para fazê-lo. Se bem que essa distância não diz muito. Mas, sinceramente, acho difícil alguma comida se distanciar por mais de quinze metros daquele refeitório sem ser indegustadamente devorada. O fato é que ele não cheirava aquilo também. Aquele lixo não fora confeccionado como os outros pra termicamente guardar as guloseimas para os ratos. Inútil seria cheirá-lo a fim de ativar os quimioreceptores e estimular a liberação de secreções digestivas. Engolia vorazmente.
Confesso, que naquela circunstância, não sei se aquela ingestão seria capaz de injuriar aquele ser. Muito embora, aquela víscera estivesse totalmente maligna.
Costumam dizer que a pobreza e a fome são o câncer da sociedade. Fico pensando, então, quão patógeno socialmente seria aquela criatura.
Mas no mundo da cibernética e robótica, que valor tem aquela vida? Aliás, aquele suspiro....Insignificante ante a revolução industrial. Num mundo onde a busca incessante é pelo petróleo, de que vale aquela criatura?
Sem se dar conta dessas questões, os poderosos só pensam em brincar. Como num vídeo-game, atacam sem escrúpulos terras alheias. Como acham que estão numa boa festa, não lhes faltam foguetes potentes. Depois, dizendo que serão intoxicados pelo anfitrião, desarrumam sua casa, rouba-lhe sua comida, sua energia, e ali se sitiam ao bel-prazer. Quando cansam daquela estadia, saem para promover novos espetáculos. E olha que são marketeiros. Passam na televisão ao vivo e tudo. Só não têm muita ética nas propagandas, pois a maioria delas fere o terceiro e quinto artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Artigos esses que garantem a vida e repudiam os tratos desumanos. Ainda querem propor livre comércio com a terra verde-loura. Imagine se descobrir mais petróleo na bacia de Campos e os tupiniquins não propuserem exportação livre de impostos. A festa será em nossa casa.
Nesse hedonismo desvairado, fica-se à espera de grandes feitos, ansiosos pela próxima campanha. E quando ela vem, contenta-se em discar 0300-num-sei-quanto-num-sei-quanto e doar o que sobra do mês. Aqui, não me ponho contra a doações financeiras, muito pelo contrário. Só acho que contentar-se com elas é equivocar-se de que se está com o dever do cidadão comprido. Uma atitude, no mínimo, muito cômoda.
Portanto, o que preconizo, não é a espera de intentonas comunistas, que são capazes de percorrer 25 mil quilômetros e só conseguir enfraquecer um governo e nada mais. Não é levantarmos bandeiras de vias alternativas grotescas. Não é exaurirmos o capitalismo até as últimas conseqüências. Melhor seria, que espelhássemos nas formiguinhas, e cada um, a cada momento que possível, fizesse bem o seu papel. Coisas simples, nada de mirabolante. Poderia começar dando um prato de comida a um indigente que bate à sua porta. Ou parando na faixa de pedestres ao sair de casa. Não furando semáforos, não instigando a ira em outrem fazendo-lhe gestos obscenos. Suportando a fila sem provocar tumulto.Guardando o papel de balinha no bolso pra jogá-lo no lixo depois. Sorrindo para o chefe ou empregado no trabalho quando não se é bem compreendido. Dando uma informação precisa a um paciente debilitado no corredor de um hospital e, se possível, ajudá-lo indo com ele onde for preciso. Cumprimentar quem passa rápido por você ao menos com um balançar de cabeça e um sorriso espontâneo. Acredite, neste momento você o sensibiliza mesmo que ele não tenha consciência disso. Lutar pela justiça outrora perdida, zelar pelo lisura de atos. Lembrar que existe um SER justo acima de nós.
Talvez assim, quem sabe, evitemos que alguém como eu ou você almoce um tumor. Talvez evitemos que seja visto, por alguns, como uma simples fonte de energia e, que maior valor teria, se estivesse num biodigestor, como fazem com os lixos e os estrumes de animais. Talvez o livrássemos da condição de bicho dando vida a um poema. Talvez consigamos fazer do homem um ser humano.
"Pra cima Brasil", é uma música muito linda composta, melodia e letra, por João Alexandre. Se possível, faça o download dela no kazaa e cante comigo.
" Pra cima Brasil
Como será o futuro do nosso país?
Surge a pergunta no olhar e na alma do povo.
Cada vez mais cresce a fome nas ruas, nos morros,
Cada vez menos dinheiro pra sobreviver.
Onde andará a justiça outrora perdida,
Some a resposta na voz e na vez de quem manda.
Homens com tanto poder e nenhum coração,
Gente que compra e que vende a moral da nação.
Brasil, olha pra cima,
Existe uma chance de ser novamente feliz,
Brasil, há uma esperança,
Volta teus olhos pra Deus, justo juiz.
Como será o futuro do nosso país?"
Talvez com este ímpeto, com um olhar de menino e amor no coração, consigamos elevar não só o Brasil, mas principalmente o ser humano contido dentro de cada um de nós.
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 1:16 PM
Segunda-feira, Outubro 20, 2003
Por algum motivo, lembrei-me da atual estação. Cheia de cores, cheia de odores, sabores...e, sob a fúria do vento, cada flor com seus tremores.
Das estações, creio ser a mais bela. A todo canto que se olha, lá está uma flor a desabrochar. Como era lindo aquele botão, como tornou-se lindo o seu quinhão. Um beijo-flor passou, beijou a primeira e não se contentou. Quis provar a segunda e também o fez com a terceira. Beijando aqui e acolá, sem ser contudo promíscuo. E porque não se estava sempre a beijar? Reside aí nosso engano. O passarinho era apenas um cupido. Parava diante da Rosa e falava uma coisinha no seu ouvido. Está sorria e concordava. Então o colibri, alegre e com doçura nos lábios, ia ao Lírio do Campo alcovitar. Que doce passarinho, que um jardim inteiro consegue plantar.
Já grandinhos, Rosa e Lírio apaixonados, de mãos dadas saem pelo jardim a enfeitar. Ó como é simples e bela a primavera.
Outras vezes, não se tem aves para as flores beijar. Não se tem cupido para os casos arranjar. Então o vento, com ar de galante saem às flores polinizar. E também o faz com perfeição. Sopra aqui e ali, e eis que nasce um botão. Fruto de dois amores, começa a crescer belo e único no quintal da Dona Felicidade. Regado a cada dia, cresce vistoso, bonito. Enche os olhos de quem de longe vê.
Contudo, ao lado do jardim da dona Felicidade, há um vizinho chato, rancoroso e mau-humorado. Parece não gostar de coisas belas. Tomado de seu vil espírito, decepa a roseira no pé. Parece estar morta, sequinha, sem cor. Mas, ao contrário do que parece, ela apenas chora de tanta dor, lembrando do seu nascimento que fora fecundado com tanto amor.
Como ela não é boba e nem nada, espera seu agressor ir embora, e então começa crescer novamente. Com pequenos brotos, mostra-se bastante viva. Tão logo, alegre e sorridente, estara a bonitas pétalas, novamente desabrochar.
Sinceramente, acho que a Dona Felicidade é parente bem próxima do Seu Amor. Pois ela vive dizendo que cultiva a roseira pensando nele. Ainda diz que assim o faz por achar-lhes bastante parecidos. Concordo com ela. Muitas vezes, o amor é plantado com ou sem a ajuda dos beija-flores. Então ele começa a crescer belo e elegante, feliz, puro, com um brilho todo especial. Daí vem uma intempérie e o corta no pé. Ele, por vezes, parece estar morto, mas como a roseira, está somente a chorar em silêncio a sua dor. Como fora fecundado de uma harmoniosa relação, devagarzinho, novamente começa a crescer. Então, numa fértil terra, sob o brilho fulgurante do sol e as frescas águas das chuvas, ele resplandece.
Entretanto, acho que ele tem grande vantagem sobre as flores. Pois o amor verdadeiro não é como a primavera que, não suportando o balanço da Terra, acaba no verão. Pelo contrário, no inverno dorme agarradinho, no verão sai feliz pra passear. No outono, sente o gosto da maçã e, enfim, quando chega a mais bela estação, ele olha as flores, escolhe a mais bela e feliz sai a cantar.
Como estamos na primavera, eis o "Cancioneiro da primavera":
"Se
Você disse que não sabe que não
Mas também não tem certeza que sim
Quer saber?
Quando é assim
Deixa vir do coração
Você sabe que eu só penso em você
Você diz que vive pensando em mim
Pode ser
Se é assim
Você tem que largar a mão do não
Soltar essa louca, arder de paixão
Não há como doer pra decidir
só dizer sim ou não
Mas você adora um se...
Eu levo a sério mas você disfarça
Você me diz a beça e eu nessa de horror
E me remete ao frio que vem lá do sul
Insiste em zero a zero e eu quero um a um
Sei lá o que te dá, não quer meu calor
São Jorge por favor me empresta o dragão
Mais fácil aprender japonês em braile
Do que você decidir se dá ou não"
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 11:17 PM
Domingo, Outubro 19, 2003
Como se fosse mas não
Outrora, olhava as nuances azuis do mar. Sentindo o sol aglutinar minhas melaninas, chutava os incontáveis grãos de areia sobre a verde garrafa de guaraná. Um ambiente bastante peculiar. "Água de côco, patrão?!", "Salada de fruta fresquinha", "Olha a ostra, olha a ostra", "Caldinho, caldinho. Um é três, dois é cinco", "Óculos de sol aí legal?! Esse aqui tá na moda!".
Estar na moda: That's the question. Eis mais um modismo. E este, veio na forma de estrangeirismos lingüísticos. Veio e ficou. Sem tradução e nem muita explicação. Pedantes, não dão nenhum feedback como está a passarela lá fora. Talvez porque seja muito fácil saber. Basta entrar em algum site com vários links aparentemente legais, fazer um download e salvar como pasta da web pra depois clicar em algum back e trazer tudo à tona. O depois, na maioria das vezes, não chega. Aí existem inúmeras razões. Muitas vezes entretidos demais com algum video-clip da Music Television, ou porque não se quer parar o video-game antes de pegar o password . Alguns, mais abastados, se divertem frente a um home teather com os brothers. Outros, nem tão privilegiados assim, contentam-se em curtir um compact disc movidos a laser. Ainda existem aqueles que, cansados de todo mês fazerem upgrade no computador, optam por conjugar o verbo deletar em primeira pessoa do presente, mas só revelam o feito em um pretérito perfeito. Deletei. Não me perguntem como conjugá-lo na forma mais que perfeita do passado. Até o fiz, mas confesso que me senti um completo cacófato.
O fato é que alguns estão tão na moda que chegam a ser fashion. Confesso que ainda não encontrei a diferença latina e anglo-saxônia desses dois estágios. Mais um desencontro comensal dessa vil cabecinha. E no mundo fashion, sinto-me à vontade. O porquê explico: nele posso ser ridículo e ainda dizem que estou na moda. Não pensem, contudo, que quando estive com Eric Marmo num desfile a convite de uma grife que gosto, achei seu sapato estilo palhaço-de-circo ridículo. Pelo contrário, cai muito bem em algum traje para o próximo verão. Aos que pretendem cultivar a elegância, o jeans continua sendo uma boa pedida. A propósito, mais um estrangeirismo em moda constante, jeans.
Nesse mundo da moda, alguns são realmente ridículos. Não os culpo, coitados, pois eles não o são porque querem. Os ditames preconizam justamente essa questão. Ter estilo é ser visto como realmente queria que fosse. Ser piegas, cafona, brega, é achar que está sendo visto de uma forma, quando na verdade não atinge esse objetivo. Pára no achar que estava assim ou assado. Engana-se a si mesmo(essa construção polinomial realmente parece ser errada, mas não é, para o desgosto de alguns). É como uma ejaculação precoce. É como se fosse,mas não....
As pessoas são capazes de assimilar qualquer modismo muito facilmente. Por um natural escrúpulo, imagino, temem em não seguirem a maioria, o povão, a massa. Não refiro-me apenas às passarelas têxteis, o que é até legal. Agora atenho-me ao modismo da linguagem. Aos estrangeirismos, encarando como um processo da globalização, às vezes engulo por realmente faltar termos adequados para os comandos de uma nova tecnologia que, em grande parte, também é importada. Ao modismo da língua nacional, porém, não tenho escrúpulos. Meus tímpanos cansaram de serem injuriados. Meu cérebro cansou de receber comandos para uma coisa quando na verdade se queria outra. E o pior, comandos de catedráticos que pensam estar lançando mão da última evolução da língua em seus discursos.
Quem nunca escutou falar que "a nível" celular a bactéria ataca de tal forma? Pura mentira. Pois "a nível" celular a bactéria nunca atacou. Por vezes, tais microorganismos atacam em nível celular. O que também não é muito convincente, pois é difícil estabelecer níveis de parâmetros para enquadrar uma célula. Como são bobas tais bactérias! Poderiam atacar simplesmente a célula e deixar o nível de lado.
Quem nunca discutiu política e futebol "a nível" de Brasil? Se disserem que sim, indago sobre a unidade de medida que usaram, pois a desconheço. Por vezes, penso que esse uso masturbatório de tal expressão é simplesmente por vivermos a nível do mar. Aí sim, posso até concordar, somente neste caso: a nível do mar.
Hoje mesmo me perguntaram "onde" eu iria à noite. Quando me fizeram tal pergunta, creio que pensaram que eu já estava em tal lugar, parado, esperando-lhes que viessem para perguntar-lhes donde haviam vindo e aonde iríamos lanchar. Só pode ser isso.
Mais tarde ainda disseram que iriam "de encontro" a alguns amigos. Amigos ou inimigos, ainda pensei. Talvez seriam amigos de que se discordassem muito a ponto de irem de encontro. Descobri que não era e quase lhes sugeri que fossem ao encontro. Propor uma coisa mais amigável.
Quando saíamos do cinema, depois de termos assistido Identidade(recomendo-o, muito bom)ainda comentávamos do filme. Confesso que por um momento não sei se meu amigo falava da gente, ou do agente do filme. Tentei compreendê-lo sem que ele notasse mais um dos meus desencontros comensais.
No caminho pra casa, comentando sobre algumas roupas que vimos no shopping, um confrade ainda insultou-me acerca de uma que eu tinha comprado. Dizia ele que era muito brega, que se ele fosse eu, nunca usaria uma gravata cor de rosa. Não falei nada. Talvez algum dia eu me convença a deixar o mundo fashion e passe a andar na moda como eles.
Nesse ínterim, apeei no supermercado e pedi que fatiasse trezentos gramas de presunto pra eu levar. O rapaz, tentando confirmar o pedido, ainda perguntou se era "trezentas gramas". Como deixei o hábito de ruminar restrito aos bovinos, reafirmei que queria trezentos gramas. Apontei para o da Sadia. Ele me disse que o sem gordura, que estava na moda, era o da Perdigão. Balancei a cabeça positivamente, paguei e fui embora satisfeito por estar na moda em algumas coisas. E também aquele era bom. Afinal, como se fosse, mas não S.
Ismael Alexandrino.
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 9:43 AM
Quinta-feira, Outubro 16, 2003
E pensando...imaginei como seria um hiploglosso cartesiano....
Hipoglosso cartesiano
No embalo de Chopin em mi bemol maior, pequei-me a pensar. Logo, a existir. Pelo menos René Descartes dizia que sim. Cogito, ergo sum! Mas, do gênio que se arriscava com ímpeto considerável na filosofia, prefiro o seu plano cartesiano. Esse sim, real e preciso, extremamente preciso. Não me venham com complexos...nem de números e nem matemáticos. Agora dou-me ao direito de pensar bidimensionalmente. Alguns, que com nada concordam, até podem dizer que é muito simples e limitado. A esses, dou-me ao luxo de ignorá-los. Pois agora, limito-me ao simples. Talvez em outra oportunidade eu satisfaça o ego desses e quem sabe convide-os a um passeio à pé e de chinelo de velcro na décima primeira dimensão, no tão conspícuo mundo das p-branas. É um caso a cogitar. Talvez também convide Stephen Hawking com o seu universo para participar da minha Casca de Noz.
O fato é que em ordenadas e abcissas, meu pensamento se traduz cartesianamente. Isso mesmo. Gerado em algum lugar no infinito positivo do córtex, passa de axônios a dendritos a ventrículos, a tálamo, hipotálamo sempre rumo à origem. Enfim, a congruência e colinearidade da bidimensão. Eis o tronco encefálico. Mesencéfalo, ponte e bulbo. Nesses dois últimos, começam minhas abcissas. Agora, noventa graus em outra direção rumo a mais um infinito. E neste me comprazo.
E no novo infinito, agora totalmente eferente, delicio-me.Não puro e simplesmente, mas pela possibilidade de questionar a premissa maior, a menor e a conclusão silógica de Descartes tão conhecida pela massa.
Se para existir bastasse sermos pensadores, seríamos apenas uma bela escultura de Rodin. Talvez ficasse até bonito numa exposição de arte. Mas eu cansaria demais o bumbum e o queixo. Também não consigo ficar numa estaticidade sem fim. Restringiríamos ao universo vertical do pensamento. Sinceramente acho que Descartes fora filósofo, ao discursar o método, antes de sê-lo matemático, criando seu plano. Segundo à dialética, é um bom caminho. Tenho minhas dúvidas. Isaac Newton creio que também o fora. Ainda bem que uma maçã despencara em sua cabeça tão sábia, que estava somente a pensar, pensar e pensar. Oportuna hora. Nessa época já existia um outro, porém, que já caminhava pela abcissa cartesiana. O pré-iluminista John Locke não restringiu-se ao pensar, ele falou, lançando mão da sua real existência. E nessa simplicidade do eixo horizontal, influenciou gigantes. Dentre eles, Adam Smith, pai do liberalismo econômico...oferta X procura...quem não lembra?! E nessa onda de influências, Isaac Newton, classicamente também adquiriu sua existência. Parou de pensar, pensar e pensar e agiu. Agiu e reagiu. E estava empirizada sua terceira lei. Saudações à esta lei, pois se só as duas fossem legisladas o cinto de segurança não nos protegeria. Não se tem desculpas, portanto, para deixar de usá-lo.
Pois bem, outros tantos quando chegaram de um infinito, não hesitaram em direcionar-se para o outro. Graças a um hipoglosso cartesiano, hoje vivemos há 2003 anos depois de Cristo( d.C.). Ao deixar o pensamento fluir do córtex cerebral, logo ele chegou naquele ponto onde tudo muda a direção. Onde o trigêmio ganha vida, o facial se expressa, o glossofaríngeo aprecia o sabor e o hipoglosso põe-se a falar. Por se tratar do homem-DEUS, creio que o pensamento Divino vinha de um infinito mais distante que o nosso. Consegue imaginar isso? Bem que Einstein dizia que a imaginação ser maior que a sabedoria. Bom seria se conseguíssemos aliá-las sempre, torná-las amiguinhas inseparáveis, daquelas que sentam pra compilar sóbrias idéias a respeito de fulano de tal.
Muitos dos que hoje são considerados grandes homens na política, nas artes, na ciência, enfim, grandes homens da humanidade ou que foram notáveis por algo, tiveram nos bastidores dos seus palcos grandes pensadores. Dos pensadores, conheço poucos. Talvez pela pouca idade, pode ser. Quanto aos grandes homens, porém, conheço inúmeros. Não por mim, detentor de um parco conhecimento, mas pela atitudes deles de não se restringirem ao pensar. E dessa forma sim, notáveis foram suas existências; ao expressar suas idéias de forma sistemática e com eloqüência formando opiniões, gerando atitudes, estimulando revoltas, atuando como modificadores do meio. Tudo isso, graças à motricidade que um nervo confere à língua, fio que traz à tona palavras, sentimentos, idéias e gestos gerados no infinito pensante. Alguns nem tão pensantes assim, concordo.
Baseado nessa visão, sinceramente às vezes não me sinto existindo apenas pensando. Sinto muito por descordar do Discurso do Método no que tange esse aspecto. Porém, não comentem com o grande filósofo que nisso o contrario, pois ele poderia ficar triste, acredito. Não pela discordância, que gera a dialética, mas por não conseguir-me demover com sua máxima sofismável. Contudo, se o encontrarem por aí, digam a ele que sempre me pego cartesianamente elaborando elocubrações. Trago-as do infinito positivo fomentadas nos meus giros até a origem. Então o hipoglosso me ajuda a passá-las adiante.
Não imaginem contudo, que neste momento me prenderei à compartilhar alguma idéia inebriante que tenha me vindo. Pois, não estou existindo segundo Decá.....porém, à minha moda, vou ali em Passárgada, cantarei meu amor a uma Marília Bela, sorrirei e a beijarei muito, exercitando também os trigêmos, o facial e o glossofaríngeo. Então, juntos, a Bela e eu, faremos um bolo de três cores pra lanchar, um suquinho de laranja pra degustar, passearemos na praia, sentiremos a brisa no rosto, o cheiro de mar, e depois voltarei pra minha Casca de Noz feliz da vida. Quem sabe continue a escutar Chopin, ainda mais alegre, em lá bemol maior. E assim, satisfeito por não apenas pensar, não duvidarei de que existo.
Ismael Alexandrino.
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 3:58 PM
Simplesmente pensando.......
made in Casca de Noz às 12:36 AM
Terça-feira, Outubro 14, 2003
Rotineiramente, agimos de forma a evidenciar quem somos. Muitos não se dão conta disso, agem inconseqüentemente. Não que isso seja de todo um mau. Contudo, ao tomarmos essa postura passamos às pessoas que nos rodeiam, muitas vezes, uma imagem que não gostaríamos.
O despertador toca e um raio de luz invade seu espaço por uma fresta. Por vezes, ficamos irritados. Quem nunca ficou? Devíamos, na verdade, agradecer a DEUS de nos dar uma fonte de energia primária tão singular. Singular não só em número, mas acreditem: também em gênero e grau. SOL, gênero masculino e....pronunciem novamente...SOL! No seu vestíbulo bucal ele é mais aumentativo do que nunca. É nesse momento que devíamos atentar para a construção da nossa imagem, qual de nós gostaríamos que as pessoas vissem naquele dia. O eu ou o "eu".
Quantos de nós pensamos, ao acordar, que, até mesmo a feição que antepomos ao espelho pode influenciar a visão que outrem tem de nós? Isso mesmo, a forma como você se olha influencia diretamente como os demais te olham. Seria muito otimismo, olhar seu espectro virtual extremamente mal-humorado, com nítida feição de chatice e crer que o verão como "o legal". Tudo bem, tem pessoas que têm tanto gozo em comiseração e em insultar o asco alheio que, de fato, não fazem a mínima questão de serem achadas como legais. Respeito estas, afinal, cada um escolhe seu estilo e "filosofia" de vida, como costumam dizer.
Pois bem, pra o receptor entender completamente a mensagem emitida, esta tem que ser absolutamente clara. Para isso, pensar, mesmo que por uma fração de segundo, todos os seus atos é uma atitude e tanto. Diria, satisfazendo aos lingüistas, um instrumento subliminar do código. Subliminar porque você não necessariamente o revela, mas tem total intenção de fazê-lo. Não pense que tudo isso tange apenas o campo racional, pois este nunca desvincula-se do emocional. Mesmo porque não somos máquinas. Se bem que acho que meu computador de vez em quando se irrita comigo e teima em não ligar. Talvez esteja cansado das minhas palavras. Confesso que é minha melhor intenção com ele, mas....sabe-se lá o que passa na cabeça desse ser tão emocional ultimamente.
E foi pensando antes de expressar-me, que hoje resolvi pintar o sete. Sim, a vida em perfeição. Nem sei se conseguirei, pois perfeito só meu CRIADOR. Mas tentarei pintar um sentimento em especial que a cada manhã me invade mais e mais, em cada arrebol penetra em todas as minhas células.
Antes, porém, lembro-me do meu colega Patch Adams que diz que sorrir faz bem à saúde. Então, sorrir nesse exato momento pode ser um santo remédio. E mais: que tal experimentar dar aquele sorriso quando acordar e olhar-se no espelho? Você pode começar um dia diferente fazendo esse simples gesto. Façam isso e contem-me a experiência a posteriori, pois agora retiro-me para minha Casca de Noz a fim de "Pintar o Sete".
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 12:54 AM
Segunda-feira, Outubro 13, 2003
made in Casca de Noz às 1:25 AM
A todos que, como eu, sempre cultiva uma criança sincera e alegre dentro de si, um feliz dia das crianças!
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 1:18 AM
Sábado, Outubro 11, 2003
Eu-rio
Nem sempre tudo ao nosso redor acontece segundo nosso agrado. Há ações, há fatos, que se pudéssemos, com certeza impediríamos sua realização. Há pessoas, que se pudéssemos, também não deixaríamos ir, e outras tantas acolheríamos para sempre. Há sentimentos, que, por vezes tentam nos rondar, que se fôssemos capazes sempre, mandaríamos eles pra bem longe. Mas estes, vez ou outra, também nos acomete. E encaro essa tentativa de injúria, essa fuga do nosso controle, como algo normal, passageiro, como um rio. Sim, um rio.
Assim como nós, o rio não se contêm nas entranhas terrestres e então rebenta. A esse parto não chamam de "luz", mas nascente. Ainda bem novinho, já dá seus primeiros passos. Vai nutrindo-se aos poucos aqui e acolá. Come uma fruta, uma folha, engole uma raiz, um bichinho, bebe de outras águas, e assim vai se sustentando e crescendo. Talvez ele tenha uma vantagem, pois quando novo, não costuma engasgar. Aqui excluo as regiões muito secas.
Daí, bem alimentado, forte, ele segue seu caminho. Vira pra direita, sobe o nível---sim, sobe o nível---,vira pra esquerda, dá uma longa descida, depois mais uma bem rápida....Encontra galhos e os leva consigo sabe DEUS até aonde. Depara-se com pedras, mas não as chutam e muito menos xingam-nas. Se compadece, as rodeiam ou pulam e, quase sempre, até as lavam. Às vezes pára pra descansar numa sombra. Ali enrola, enrola, pensa em voltar, mas segue em frente. Caudaloso e com postura elegante. Tudo isso, segundo a sua vontade.
Contudo, algumas vezes vêm as chuvas e o faz derramar de tão cheio. Ele fica nervoso, enfurecido, perde o controle e não se preocupa com o que está à frente. Passa por cima de tudo, demolindo. Quando está assim, é melhor nem chegar perto. Outras vezes, chega um senhor de chapéu em cima de um trator e com petulância joga terra em seus olhos, o empurra mais pra lá, invade seu espaço. A todas essas coisas porém, ele não pode impedir. Mas ele aprende a lidar com elas. Quanto às chuvas, tão logo elas passam, ele volta a se acalmar arrependido dos estragos que causou deseducadamente. Quanto à soberba humana em invadir seu espaço, ele humildemente dá o seu jeitinho. Propõe um convívio mais superficial, ou procura outro caminho. Muitas vezes passa fome e até sede, mas sempre dá um jeito. Quão sábio são os rios!
Talvez fôssemos mais rio e menos represa, melhoraríamos nossa caminhada e convívio social. Os lagos recebem tudo passivamente, águas boas e ruins, limpas e sujas. Recebem pedregulhos e os sedimentam, recebem sujeiras e, absorvendo-as, guardam para si. Nada fazem para se renovarem, senão, contentam-se com uma pífia e lenta vaporização. Na verdade, geralmente é onde o rio morre, sua foz. Tornemos nosso dia-a-dia semelhantes a um rio. E nessa congruência, atentemo-nos para a constante dinâmica em busca do equilíbrio.
E no curso do rio, na Rua dos Navegantes, em uma Boa Viagem em Recife, vi um rio de sangue.
Inundei-me num rio de lágrimas e, em luto, jorrei "Um flanelinha navegante"
Um flanelinha navegante
Nem um estampido, um barulho se quer...
Recluso em minha Casca de Noz,
a janela fechada impossibilitava
todo e qualquer ruído externo.
Meus ouvidos parecem que só estavam sensíveis
aos sons emitidos pelo programa de bate-papo
aberto ante os meus olhos.
Nem um estampido, um barulho sequer...
A janela foi aberta.
Não a dos meus olhos,
pois eu continuava no mundo virtual.
Mas o vento batia forte no meu rosto,
podia sentir a maresia...como se estivesse....
como se estivesse no mundo real.
Escutei uma sirene. Parecia do mundo real.
-- Será como está lá ? Pensei.
Resolvi espiar.
Uma multidão em círculo; a luz vermelha
no vai-e-vem circulante
tentando ofuscar meus olhos.
Esfreguei-os, mas só via aquela coisa vermelha.
Resolvi me aproximar.
O silêncio continuava; não aquele da casca de noz.
Mas um silêncio eloqüente,
daqueles que gesticulam e tudo,...inconformado.
Tudo isso sob os olofotes escarlates,
inundando rua, meio-fio, calçada.
Um mosaico de tons de baixa freqüencia
escorria por aquele buraco.
Tão pequeno....mas derramando muito humor...
púrpureo, escarlate,carmesim.
Escorrendo para o esgoto de ratazanas imundas,
fazendo curvas sem parar nos obstáculos, como que um rio.
Toquei-me que aquele era de fato o mundo real.
Agora sim, o sangue daquele corpo que padecia
nos meus pés não parava mais nos obstáculos,
nas pedras do caminho como antes...
senão, rolava rumo ao canal.
É, aquele famoso rio de excrementos humanos que dá até nome a avenida.
Aquele mesmo que um dia vi aquele mesmo jovem mergulhar
e se debaldar em risadas.
Sim, um ser tratado como excremento da sociedade,
agora pelas valetas da rua, finalmente iria
naquele canal, se juntar aos seus.
Ismael Alexandrino
made in Casca de Noz às 3:42 AM
Sexta-feira, Outubro 10, 2003
Aliando a mim, meu nobre irmão, Mano Véi, de quem sou fã incondicional e sem reservas, vê além do horizonte da minha Casca de Noz e também presta uma homenagem ao papai. Olhando pela janela da imaginação, tece essa obra prima:
É a nossa janela papai!!!
Mesmo possuindo pouca idade, os umbrais antigos "da janela" me fazem rever "velhas" lembranças.
Se alguma janela me levasse ao passado, certamente eu iria à adolescência de meu pai. Ela, desde criança, órfão dos pais, trilhou caminhos difíceis e o tempo fez dele um dentista. Esta profissão ele aprendeu com um tio quando era ainda jovem e é através dela que ele nos sustenta até hoje.
Talvez alguém pessoa então me perguntar: Mas por que você queria "ir à adolescência" de seu pai?
Porque algum dia ele sonhou em ser um médico cirurgião e a falta de seus pais aliada à precária condição financeira não permitiram que ele concretizasse seu sonho. Do mesmo modo como que meu pai (meu herói) batalha junto comigo para que eu realize meus anseios, eu queria poder ajuda-lo a ser um grande cirurgião.
"Meu herói" nunca me pediu que fizesse o curso de seus sonhos, contudo, desde minha adolescência, o "silêncio de suas palavras" e a "voz de suas atitudes" fizera com que optasse por ser médico.
Como não posso me "transportar" à adolescência de meu pai, queria apenas mostrar a ele que hoje eu posso ver o meu futuro pela mesma janela que vi o seu passado, e que se agora já consigo "vislumbrar o horizonte, é porque estou sobre os ombros de um gigante" (meu pai).
Essa foi minha redação com a qual fui aprovado no curso de medicina e o tema era : "o que você pode ver pela janela"....bem subjetivo por sinal!!!(Tinha o desenho acima na prova)
Daniel Alexandrino
Por um pai
Ainda há pouco, em meio a tantas bactérias, protozoários, fungos e vírus, detive-me no capítulo em como eliminá-los. Antimicrobióticos. Interessante como muitos deles agem: no processo da reprodução.E as bactérias, assexuadas que são, reproduzem, por conjugação.
Mas não pensem que são só elas. Muitos de nós também advimos desse processo. Aos adeptos do empirismo científico, posso provar sem muito esforço. Em uma noite do mês de outubro, calculo, estava lá papai conjugando o verbo amar. E o fazia na voz ativa. Não foi precocemente, ele diz, mas fora uma conjugação. Como uma bactéria, conjugação e bipartição. E viva a facilidade de se compreender o empirismo. Não pensem que sou exemplo único. Quem nunca bipartiu? Todos já foram zigoto e não pararam por aí...mórula, blástula, gástrula. Biparti tanto que hoje queria me juntar novamente.
Sim, juntar as palavras, juntar aos amigos e , enfim, juntar-me ao papai e parabenizá-lo . Não só por aquela noite, que fora um regozijo total, mas pelos seus cinqüenta e sete anos. E não puramente por ter passado esse tempo todo, mas principalmente por ele ter sido quem foi durante esse período.
Nem ao "Show da Xuxa", depois que ela deixou a carreira de prostituta, eu assistia. Não me venham com menudências repressivas, pois não tenho nada contra tal profissão, afinal, em qualquer que optemos por trabalhar, devemos sempre fazê-lo com gozo. E creio que elas o fazem como ninguém. Pois bem, não me atinha ao programa global. Meu herói era outro. E ele realmente dava show. Empinava pipa, fazia estilingue e encomendava a capanga, jogava biblioquê sem errar (boloquê ou biloquê também estão corretos), jogava finca com precisão, contava piada, fazia carrinho com sabugo de milho e lata de óleo, assobiava como passarinho, pescava o maior peixe de todos, sabia caçar...um super-herói nato. Aprendi todo o seu show. Realmente a telinha era inútil. Talvez isso explique meu desapego atual pela tela que projeta imagens, que por muito tempo não entendia como.
Mas a magnitude desse ser não se resumia a isso. Um caráter implacável, uma sinceridade às vezes por demais. Um olhar lindo, puro, revelador de sentimentos verdadeiros. Não canso de olhar para ele. Um bom humor de moleque, um sorriso de menino. Uma sabedoria abençoada por DEUS, um amor de pai. Mesmo a 2500 km, nunca deixo de senti-lo como se estivesse sempre andando comigo. Talvez porque, como se já não tivesse me dado demais, ainda me emprestou o seu nome. Então, quando me chamam, lembro dele e, por isso, tento zelar por aquilo que me foi concedido. Nem sempre consigo, pois sou passível da falência humana...e até acho que ele entende. Pois, como se não bastasse, ele ainda tem bom senso.
De fato queria saudá-lo como merece, mas ainda sou pequenino para tanto e as lágrimas a cair ainda tiram minha concentração. Fôra e ainda é meu herói. Nada mais sensato e grato, eu sê-lo seu guardião. Então, se algum dia bactérias, fungos, protozoários ou vírus conspirar contra meu herói, hoje aprendi como combatê-las e, prontamente, o farei.
Feliz aniversário papaizinho. Te amo!
Muitos, aos seus cantam o ódio. Ao meu, prefiro odear....
Ode ao papai
Oh! Quão doce é teu sorriso,
Quão lindo o teu olhar.
Oh! Quão bom é tê-lo!
Guardarei-o sempre com zelo.
Oh! Quão bela és tua voz
Que estás sempre a cantar.
Oh! Quão bom é tê-lo!
Guardarei-o sempre com zelo.
Quão galante é teu semblante,
Quão firme a tua fé.
Oh! Quão bom é tê-lo.
Quão feliz me faz,
De tanto amor que me dás.
Guardarei-o sempre com zelo.
Ismael Alexandrino.
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 3:18 AM
Quinta-feira, Outubro 09, 2003
Um dia, recebi em meu e-mail algo mais ou menos assim:
"Odeio seu jeito de falar
E o seu cabelo sem corte
Odeio como dirige meu carro
E odeio quando fica a me olhar
Odeio tuas botas de combate
E como lê minha mente
Te odeio tanto que me enjoa
E até me faz rimar
Odeio por sempre ter razão
Odeio quando mente
Odeio quando me faz rir
E ainda mais quando me faz chorar
Odeio quando não está por perto
E quando não me liga
Mas mais que tudo, odeio o modo como não te odeio...
Nem um pouco,
Nem por um segundo, nem nada"
(((----10 things i hate about you-----))))
Então me pus a pensar:
Recalcado, passei a tentar entender o sentido das palavras, se é que elas tinham sentido. Li, reli, e novamente li. Quase que me sentia odiado. Então comecei a indagar minhas entranhas o que elas achavam de tudo isso. Mas elas viraram a cara pra mim. Quase me senti ignorado por mim mesmo. Fora horrível o desprezo que eu e eu mesmo contracenaram no palco da amargura. Precisavam ver a cena, patética!
Foi quando me lembrei como Charles Chaplin gostaria que fosse a vida. De ponta a cabeça. Por favor não imaginem o bigodinho do gênio nos pés e nem o chapéu na sola do sapato. Pois, da vida, refiro-me ao ciclo. Isso mesmo. Primeiro viria a morte, essa insepulta que teima em nos amedrontar, e então livraríamos logo disso. Daí, se fôssemos ricos e bem quistos pela família, talvez passaríamos um tempo numa homecare a vegetar e degustar um soro fresquinho. Sem glicose, por favor, pois a essa altura estamos falando de um diabético. Se fosse um qualquer, talvez ficaríamos um bom tempo num asilo até sermos chutados de lá por estarmos muito novos. Então ganharíamos um relógio bonito, daqueles que se coloca na algibeira da calça, típicos de vovô e iríamos trabalhar. Por uns quarenta anos trabalharíamos incessantemente...nem tanto se fôssemos funcionário público brasileiro. Muitas viagens, muitos negócios, muitas responsabilidades na diretoria da empresa, como presidente de honra de uma ONG, como marido, como pai...Também haveriam dores de cabeça sim. Seríamos demitido pelo chefe da empresa e, enfim, teríamos nosso primeiro emprego. Ufa, que sorte! Afinal, acabamos de sair da faculdade. Entramos novamente, e cursamos matéria por matéria, vendo todo dia aquele porteiro careca de chapéu dos chips pra disfarçar a cuca reluzente. E, acreditem, o "Seu Deco" era falastrão. Falava de todos os professores que chegavam com pose de galã dizendo saber dos podres de cada um. Quanta maledicência! Mas, nesse tempo, bebíamos todas, curtíamos bastante. Enfim a grande festa. Fôramos aprovados no vestibular. Mamãe e papai apreensivos, na véspera ainda nos levara no psicólogo. Eu bem que avisei que não iria adiantar assim faltando uma semana pra avaliação mas eles insistiram. Daí arrumamos uma namoradinha, tiramos a carteira de motorista e fomos pro colégio. Aquilo cansava e, cansados, viraríamos criança. Não teríamos responsabilidade alguma, jogaríamos muito vídeo-game, bafo, biloca, chutaríamos o portão da "Dona Creuza" e sairíamos correndo. De tão infantis, viraríamos bebezinho de colo. Voltaríamos pro útero materno e por lá flutuaríamos nove meses. Depois disso, terminaria tudo num ótimo orgasmo. Não acha que assim seria perfeito?
Mas sinto aqui dentro algo pulsar, aquilo que chamam de relógio biológico, marca-passo natural....esse mesmo. O coração vem me lembrar que todo relógio quando não está parado anda pra frente. E ele pulsa com tanta força que acorda minhas entranhas. Mexe e remexe com todas elas e as questionam sobre o momento que eu quase me senti odiado. Realmente elas não estão afim de dar explicação. Dão as costas, balançam os ombros e começam a cantar que não estão nem aí.
"Tô nem ai
De mãos atadas ,de pés descalços
Com você meu mundo andava de pernas pro ar
Sempre armada segui seus passos
Atei meus braços pra você não me abandonar
Já nem lembro seu nome seu telefone eu fiz questão de apagar
aceitei os meus erros me reinventei e virei a página
Agora eu tô em outra
Tô nem ai, tô nem ai
Pode ficar no seu mundinho eu não tô nem ai
Tô nem ai, tô nem ai
Não vem falar dos seus problemas que eu não vou ouvir
Boca fechada, sem embaraços
Eu te dei todos as chances de ser um bom rapaz
Mas fui vencida pelo cansaço
Nosso amar foi enterrado e descansa em paz"
A todos, um grande abraço
made in Casca de Noz às 3:10 AM
Quarta-feira, Outubro 08, 2003
Ó jovens! Deixai-vos a toxicomania
Ainda ontem conversando com uma amiga que me apraz, comentei sobre a desintoxicação. Débora ainda sorriu, gostando do termo. Mas não poderia ter outro melhor. Afinal, passamos meses e até anos bebendo da mesma droga. Alguns vinhos, alguns estimulantes, uns calmantes, outros que dizem ser pro coração, ainda há aqueles que apresentam efeito colateral e nos trazem gastrite e depressão. Todos, porém, vicia-nos. Incrível como somos toxicômanos inveterados. E o pior: nem notamos nossa dependência.
Deixamos de ir a festas e, quando não, levamos o êxtase a tiracolo. Afinal, sem ele não sentimos devidamente estimulados pra dançar desorientadamente. Talvez por isso o consumo vem aumentando em escala industrial. Deixamos de jogar bola com os amigos, e quando não, lá está a nos policiar, como se quisesse nos trair e pegar-nos no anti-dopping. Deixamos de estudar como deveria, pois mesmo pouco tempo de abstinência nos incomoda a tal ponto que buscamos novas doses nem notando que já se tornaram cavalares. E assim somos castrados cada vez mais do sadio convívio social.
Então chega o dia que de tanto nos buzinarem a cabeça, começamos a pensar que se não fossemos viciados, seriamos mais úteis à sociedade. E os pais geralmente são os que conspiram a favor do abandono da droga. Mesmo porque, muitos deles também já se intoxicaram na juventude perdendo boa parte dela. Finalmente resolvemos largar de uma vez por todas aquilo que nos corrói. Mas aí vem as síndromes de abstinência, a lembrança dos velhos sonhos (ou seria alucinações?), a sensação de que ainda se corre na veia...e parece que vamos sucumbir. Pensamos em voltar atrás da nossa decisão. E muitos realmente voltam e sabe-se lá qual o seu fim, pois muitos deles mudam-se pra outras cidades e vão viver em outros confins.
Aos convictos de que realmente é melhor abandonarem a dependência em busca de liberdade plena, resta-lhes encarar o processo de desintoxicação. Neste, ambos agora solitários, a droga e o "futuro ex-dependente"parecem, vez ou outra, querer xingarem entre si. O resquício do vício, da paixão, mistura-se com o ódio mútuo, sem muita explicação, resultando em um comportamento de verdadeiras feras mostrando os dentes.
Diante de tudo isso, fica uma indagação um tanto quanto pertinente campeando nos meus giros. Poderíamos seguir o exemplo das cores que, quando juntas, ficam tão harmonicamente arranjadas que assumem a cor da paz. E, quando separadas, cada uma assume sua beleza e peculiaridade e, sorrindo para as demais, se compraz.
Entre devaneios e elocubrações, pari "Cores e amores"
Cores e amores
Muitas cores
Se beijando
Em amores
Torna-se branco.
Muitos amores
Se beijando
Em odores
Em qualquer canto.
As cores se separam
E, cada uma com seu brilho,
Mostra-se mais bela.
Os amores se separam
E, cada um no seu trilho,
Mostra-se uma fera.
Ismael Alexandrino.
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 5:35 AM
Terça-feira, Outubro 07, 2003
Só recorrendo à sinestesia musical pra traduzir o lirismo que campeia em minhas entranhas. A cada semana, a cada dia, a cada momento, a cada atitude,cada palavra até,.... um novo efeito, novo rumo, nova perspectiva, um novo horizonte. Conseguimos vê-lo, mas nem sempre sabemos decifrar e seguir o melhor caminho. Talvez por imaturidade, orgulho, miopia, e comumente temos medo, esse gigante que tenta nos intimidar. Mas apesar de tudo isso, por um momento deixamos o receio de lado, colocamos lente de contato e ainda deixamos de sermos moucos pr'aquilo que nos chama. A partir de então, passamos a escutar a voz do coração, e as sístoles mais fortes embalam o humor e sacodem o peito a tal ponto de tolher-me as palavras e fazer-me calar ante à música que se resume no título...
"Você decide
Se o seu coração está perdido
Dividido entre dois amores
O meu coração está partido
Só eu mesmo sei das minhas dores
Eu já não suporto esse jogo
Já não quero bola dividida
Decida de uma vez é prova de fogo
Quem é o melhor na sua vida
Você decide, ou eu, ou ele
De quem será que você gosta mais de mim ou dele
Você decide o jogo é seu
Eu só não quero dividir você,
Ou ele ou eu"
E no embalo da canção, um sentimento outorga-me a uma composição outrora inspirada. Essa sim, uma composição perfeita, pois em sete notas, resume-se a Sétima Sinfonia, qual seja ouso em agora tocá-la:
Sétima Sinfonia
Queria ser uma canção.
Não ser tocado com o dedo,
mas sentido, sem medo,
no fundo do coração.
Queria ser uma nota.
Ser lido e interpretado
num tempo compassado
como se conta uma anedota.
Queria ser uma melodia
cantada inexprimivelmente...
sem porfia!
Queria ser assim...
uma música completa!
Um todo de você, um pouquinho de mim.
Ismael Alexandrino.
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 3:17 AM
Segunda-feira, Outubro 06, 2003
Você fez isso mamãe?!
O acidente fora num final de semana quando viajara com o namorado para Camburiú. Havia sido a primeira vez que a mãe deixava sua filha viajar com o namorado. Alguns diziam que ambos estavam embriagados. Talvez os transeuntes tivessem alguma razão. O fato é que a menina nem corria risco de vida, apesar de não estar usando equipamento de segurança na ocasião. O choque maior advinha do psicológico.
Ficariam ali mais três semanas e então subiriam para o litoral paulista onde o rapaz tinha casa. O que seu pai diria quando soubesse do ocorrido, era uma dúvida atroz que perturbava a menina. A mãe, não muito estável emocionalmente, possivelmente desceria ao mais baixo escalão na busca de adjetivos para o genro que, afinal, não era seu maior afeto. Tudo isso, somado a outros sentimentos de culpa, perturbava profundamente aquela jovem.
O jovem rapaz, pensando mais no prejuízo financeiro ali gerado, não parava de murmurar. Tentando exaurir sua culpa, atribuía à bebida o ocorrido. O que por si só não justificava, senão, poderia até piorar quando os "mais responsáveis" ficassem sabendo.
Permeada por todas essas tenções, a moça decidiu que tinha que fazer algo. Não podia ficar se consumindo em ansiedades por causa de um acontecimento um tanto quanto comum. Lembrando de uma amiga que passou pelo mesmo estresse emocional, resolveu que tomaria um remédio. Afinal era só mais uma droguinha que aliviaria e muito o seu psicológico. Então foi até uma farmácia e, apesar da venda ser sob prescrição médica, prontamente o balconista atendeu o pedido.
Tomou aquele comprimido sem comentar com os demais. Algum tempo depois, teve náuseas e vontade de ir ao banheiro. A água do vaso ficara vermelha e mau-cheirosa. Mas ficou naquilo ali. Bem que podia ter comentado com a mãe que era psiquiatra. Resolveu falar com o seu clínico que solicitou vê-la o mais rápido possível. Ao examinar a moça, o doutor disse que o medicamento não tinha atingido o objetivo, pois estava claro naquele exame de rotina.
Arrependida, ela decidiu que não faria mais nada além do que seu médico recomendaria a partir dali. E este, com muita propriedade e bom siso, foi cuidando da sua paciente. Explicou a ela, que aquela vida, não corria risco de morte, mas conseqüências marcantes permeariam sua existência para o resto da vida, mas que podiam ser plenamente trabalhadas.
Aquela vida, mesmo quando rebentasse para o mundo, não poderia vivê-lo intensamente. Não teria movimentos expressivos, não jogaria bola, não brincaria de bonecas, não escreveria o "a,e,i,o,u" como poderia bem fazê-lo. Seus dedinhos seriam atrofiados, suas pernas possivelmente também. E ainda teria que agradecer ao bom DEUS, porque, afinal, aquele medicamento poderia ter causado a morte....fora sim, um atentado! Os sorrisos....ah, os sorrisos....mesmo se tivesse motivos, eles não poderiam mais serem vistos. O olhar....não seria mais traduzido, pois perdera o brilho reluzente, apagara-se a cor, não seria mais revelador. As lágrimas....até essas lhe seriam tolhidas, talvez explique-se isso pelo incessante chorar do seu âmago. Realmente a partir dali o que se veria era como se fosse um palhaço triste. Tente imaginar um. É mesmo, deveras não faz sentido.
Tudo isso, porém, poderia ter sido evitado. Se a garota na ocasião do acidente estivesse com o devido equipamento de segurança, se o namorado não fosse tão intransigente, se o farmacêutico não fosse tão irresponsável....Sim, a Síndrome de Möebius poderia ter sido evitada. Se ela não tivesse tomado misoprostol (cytotec) pra uma finalidade distorcida e tentado realizar o ABORTO.
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 10:44 PM
Domingo, Outubro 05, 2003>
Ela insiste em ficar
Só me restam lembranças. Como dizia o poeta, 'lembranças de um tempo bão que já se foi". Lembranças daquele afago da mamãe, daquelas pescadas de final de semana com o papai;lembranças do mano véi me chamando pra jogar um "partidinha" de futebol no vídeo game, outras vezes pra cantarmos. Nos finais de semana, naqueles que não íamos pescar, cabia-nos a doce espera da visita dos meus irmãos mais velhos em nosso recanto, e como era doce.
Como era bom o colinho da mamãe. Só nós dois naquele sofá, sua suave mão a roçar minha face dizendo coisas que me faziam calar e, a mim, só restava ouvir em silêncio e deleitar-me no seu afago. Parece que sua mão tinha o poder de me acalmar das perturbações (e de fato tinha), sua voz fazer-me refletir e, não raro, eu sentir medíocre com a minha imensurável ignorância ante a tamanha sabedoria. Lembranças, doces momentos.
O papai, nem se fala. Intraduzível quão bem me fazia aquele sorriso espontâneo de quando eu ferrava um peixinho do jeito que ele ensinara. Parecia, num gesto simples, aprovar-me de algo que havia me ensinado. Realmente, nas simples coisas, nos mais ínfimos momentos, sua sabedoria derramava e, ainda bem, respingava em mim.Lembranças, doces momentos.
Depois de algumas discórdias, e estas, talvez conseqüentes das fortes personalidades que brilhantemente nos foi passada, estávamos lá, mano véi e eu divertindo juntos. Como era bom cantar com ele. As cordas do violão, obedecendo o ritmo do maestro, fazia-me de fato sentir o que a música expressa, o inexprimível. Orgulhava-me em "duetar" com ele. Até nossos nomes combinavam: Daniel e Ismael. As brigas? Essas com certeza nos fizeram crescer e aumentar a admiração um pelo outro. Hoje, sinceramente acho que a minha é maior. Lembranças, doces momentos.
Os manos mais velhos, cada um com sua peculiaridade, quando apontavam,a qualquer hora me roubavam um sorriso de alegria. E era uma alegria de criança que contenta-se com uma balinha. Bastava a presença deles pra me alegrar. Sílvio, Gilsa, Sérgio e Gi. Lembranças, doces momentos.
"Lembranças de um tempo bão que já se foi", e ela, insiste em ficar. Olho na janela,vejo a imensidão do universo. Nada comparável ao meu amor por essa "Divina" família, com esse jeito "Ismael" de ser. Mas talvez comparável à "Dona Saudade", que insiste em ficar .
Ismael Alexandrino
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 12:00 AM
Sábado, Outubro 04, 2003
A viagem chamada VIDA
"A vida pode ser comparada à uma viagem de trem. Uma comparação extremamente interessante, quando bem interpretada. Interessante, porque nossa vida é como uma viagem de trem realmente, cheia de embarques e desembarques, de pequenos acidentes pelo caminho, de surpresas agradáveis com alguns embarques e de tristezas com os desembarques"...
Quando nascemos, ao embarcarmos nesse trem, encontramos duas pessoas que, acreditamos, farão conosco a viagem até o fim: Nossos pais. Não é verdade!
Infelizmente, em alguma estação eles desembarcam, deixando-nos órfãos de seu carinho, proteção, amor e afeto. Mas isso não impede que, durante a viagem, embarquem pessoas interessantes que virão à ser especiais para nós. Embarcam nossos irmãos, amigos e amores. Muitas pessoas tomam esse trem a passeio. Outros fazem a viagem experimentando somente tristezas. E no trem há, também, pessoas que passam de vagão em vagão, prontas para ajudar a quem precisa. Muitos descem e deixam saudades eternas. Outros tantos viajam no trem de tal forma que, quando desocupam seus assentos, ninguém sequer percebe. Curioso é considerar que alguns passageiros que nos são tão caros, acomodam-se em vagões diferentes do nosso. Isso nos obriga a fazer essa viagem separados deles. Mas claro que isso não nos impede de, com grande dificuldade,atravessarmos nosso vagão e chegarmos até eles. O difícil é aceitarmos que não podemos nos assentar ao seu lado, pois outra pessoa estará ocupando esse lugar.
Essa viagem é assim: cheia de atropelos, sonhos, fantasias, esperas(longas às vezes), embarques e desembarques. Sabemos que esse trem jamais volta...
Façamos, então, essa viagem, da melhor maneira possível, tentando manter um bom relacionamento com todos os passageiros, procurando em cada um deles o que tem de melhor, lembrando sempre que, em algum momento do trajeto poderão fraquejar e até mesmo cair, machucar,deixar cicatrizes,....ter que trata-las, e, provavelmente, precisaremos entender isso. Nós mesmos fraquejamos algumas vezes. E, certamente, alguém nos entenderá. O grande mistério, afinal, é que não sabemos em qual parada desceremos. E fico pensando: quando eu descer desse trem sentirei saudades? Sim. Deixar meus filhos viajando nele sozinhos será muito triste. Separar-me de alguns amigos que nele fiz ou do amor da minha vida, será para mim dolorido.
Contudo, agarro-me na esperança de que, em algum momento, estarei na estação principal, e terei a emoção de vê-los chegar com sua bagagem - a que não tinham quando embarcaram. E o que me deixará feliz é saber que, de alguma forma, eu colaborei para que ela tenha crescido e se tornado valiosa.
Agora, nesse momento, o trem diminui sua velocidade para que embarquem e desembarquem pessoas. Minha expectativa aumenta, à medida que o trem vai diminuindo sua velocidade... Quem entrará? Quem sairá?
Gostaria que você pensasse no desembarque do trem, não só como a representação da morte, mas, também, como o término de uma história, de algo que duas ou mais pessoas construíram e que, por um motivo ínfimo,deixaram desmoronar. Fico feliz em perceber que certas pessoas, como nós, têm a capacidade de reconstruir para recomeçar. Isso é sinal de garra e de luta e porque não humildade..., é saber viver, é tirar o melhor de "todos os passageiros".
Agradeço a Deus por você que está lendo fazer parte da minha viagem, e por mais que nossos assentos não estejam lado a lado, com certeza, o vagão é o mesmo.
A todos, um grande abraço.
made in Casca de Noz às 11:57 PM
Sexta-feira, Outubro 03, 2003
"Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina, que vem e que passa
Num doce balanço a caminho do mar
Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que já vi passar
Ah! Como estou tão sozinho
Ah! Como tudo é tão triste
Ah! A beleza que existe
A beleza que não é só minha
E também passa sozinha
Ah! Se ela soubesse que quando ela passa
O mundo interinho se enche de graça
E fica mais lindo por causa do amor
Só por causa do amor..."
Em umas das últimas vezes que essa música foi cantada, sinceramente confesso não entender o sentimento do cantor. Na abertura das comemorações do mês da herança hispânica feita por George Bush, dia 02 de outubro, Alexandre Pires, em pleno gramado da casa branca, chora ao cumprimentar o então presidente norte-americano antes de cantar esse poema.Um choro..., aí está a grande questão.
É fato que em diversas ocasiões Garota de Ipanema emocionou multidões até mesmo no exterior. Ao lado de Aquarela e outras mais bossanovadas na voz de João Gilberto, dentre outros, o balanço da música brasileira mexeu as ancas das terras de outrem ganhando reconhecimento. Creio que Vinícius de Morais, ao descrever a graça de Heloísa Eneida, realmente se impressionara com a beleza e elegância da senhorita, pois já dizia ele que "as feias que me perdoem, mas beleza é fundamental". Um cara debochado, deveras. Contudo, sincero. Já Tom Jobim, parceiro de Vinícius na composição, resguardava-se em tragadas resfriadas pelo chopp do Bar Veloso, hoje "Bar Garota de Ipanema".
Em 1962, então, fora exposto ao mundo uma sinceridade de sentimentos de dois amigos. Possivelmente já choraram juntos naquela esquina da Rua Montenegro com a Prudente de Morais, angustiados pelo platonismo daquele amor e até mesmo pela apreciação demasiada daqueles chopps à beira-mar.Choro entre amigos de verdade, sinceridade de emoções à flor da pele, escondidas ali, naquelas mesinhas em cima da calçada.
Ganharam prêmios e prêmios com a tal música em terras verde-louras e d'além mar, algumas vezes até cantando em inglês, mas reconhecidos como brasileiros. Alexandre Pires, antes de cantar, esbravejou "Brasil, aqui estou eu!". Absolutamente nada contra o sucesso do cantor, pois ele achou a forma que lhe conveio de obtê-lo: cantando em espanhol atingiu grande projeção internacional. Tamanha projeção que lhe rendeu o convite de apresentar na casa branca como hispânico. Também não tenho nada contra estes. Contudo, confesso que fica uma grande dúvida atroz, haja visto ser eu fã de sinceridade e clareza de sentimentos. Não sei se a claudicação de Alexandre fora por estar na companhia do pacífico amigo Bush, ou se por lembrar de alguna "Chica de la playa" , ou fora mesmo Só Pra Contrariar.
A todos, um grande abraço !
made in Casca de Noz às 7:10 AM
Quinta-feira, Outubro 02, 2003
Eu prometi e estou aqui pra avisar sobre a nossa condição no campeonato. Perdemos uma partida a qual não poderíamos perder pra ficar no primeiro lugar do grupo. Goleamos de 5 a 0 uma outra, com direito a três bolas na trave por faltas por mim sofridas cobradas e uma no ângulo ( todas a estilo Ronaldinho Gaúcho) que, apesar do goleiro batido no lance, o zagueiro bastante alto tirou,...mas infelizmente estamos fora do campeonato na modalidade de campo.
Bom, ainda tem o futebol de salão, o qual nosso time é bem competitivo, contudo, pra mim o campeonato acabou mesmo. O futebol de salão não me terá mais como pivô. Explico o porquê: no último jogo, que acabou horas atrás, levei duas cotovelas no rosto. Uma delas provavelmente quebrei o nariz, pois está muito inchado, rocho e meio torto até (sem falar que estou com vontade de vomitar de dor). A outra, no final do jogo, quando tentei colocar a bola por entre as pernas do oponente, a cotovelada foi na boca. Meu dente foi pra dentro na hora. Ainda voltei ele um pouco pra fora, mas como doía muito não consegui grandes resultados. De lá, a umas duas horas atrás, fui direto na casa de tia Jael, que é dentista, pra ela voltar o dente pro lugar e ver se tinha acontecido algo mais grave com ele, pois ele foi pra dentro ,mas ficou duro. Quando ela tentou reduzi-lo, ele estralou como se estivese quebrado a raiz da coroa. Enfim, amanhã cedo estarei entre clínicas de radiografia, consultórios odontológicos e hospitais. Provavelmente estou com o dente quebrado, e talvez precise fazer canal, e com o nariz também e, se este o tiver, a correção de nariz é só cirurgia. Já estou tomando analgésico e anti-inflamatório e aguardo até amanhã porque a essa hora não tem muito o que fazer além de medicamentos paliativos. Sendo assim, com muita tristeza no coração, possivelmente não jogarei os próximos jogos que serão a daqui umas duas semanas. Acho que estou sentindo como Romário( joguei com a mesma camisa do baixinho), o melhor de todos os tempos sentiu nesse dia aqui:
Fica aqui meu lamento por não poder compartilhar com meus colegas a bela arte do futebol de salão. Realmente lamento ter que despedir do INTERMED por tais razões precocemente.No mais tá tudo bem graças a DEUS, e como não poderia ser diferente, se melhorar vira festa! Um grande abraço a todos.
made in Casca de Noz às 1:25 AM
Quarta-feira, Outubro 01, 2003
Prepare a pipoca, compre o guaraná, e sente-se. É o hoje o dia de bola na rede!!! Logo mais a noite estrearemos no INTERMED, campeonato dos estudantes de medicina. O time o qual enfrentaremos ganhou anteontem de 4 X 2 do outro integrante do grupo. Como só classifica o primeiro colocado de cada grupo não podemos perder, senão só jogaremos depois pra cumprir tabela.
Entrará em campo muita fé em DEUS, habilidade e técnica de uns, garra, disposição e categoria de outros. Estaremos todos lá, a equipe toda motivada, mas eis alguns destaques: Juliano, gigante debaixo das traves; Fágner, uma firmeza implacável na zaga; Galego, o melhor parceiro que Fágner pderia ter na retaguarda; pela lateral direita, Benhur, mais parece um Roberto Carlos, tamanha categoria; Jailton, meio campo rápido, liga facilmente ataque e defesa; James, meio de campo inato, calmo ,passivo, categoria sobrando; Eu...., falar de si próprio é complicado, como meia-atacante sou fã incondicional do Baixinho Romário e dos dribles desconcertantes de Ronaldinho Gaúcho; no ataque nem comento....Ricardinho homem-gol e Berger com seu chute preciso. Bem, é a essa turma que vou me ajuntar agora pra tentar trazer o título. Com o espírito da música de Samuel Rosa do Skank de que "bola na trave não altera o placar" e..."o meio de campo é o lugar do craque" entrarei em campo. Também levarei comigo no coração a empolgação de uma torcedora muito especial, minha mamãe que está a 2500km de mim, mas a vejo como se estivesse gritando meu nome como outrora já fez. Papai, minha firmeza e meu Mano Véi, minha inspiração de garra. Á Sabrina dedicarei os gols que por ventura acontecerem, por tudo que ela representa pra mim estimulando essa partida como uma CHEERLEADER .Com esse espírito despeço-me e voltarei mais tarde pra vos noticiar tudo. Grande abraço!
made in Casca de Noz às 4:56 PM
Sobre mim e meu cantinho
Rebentei aos 26 dias de julho numa manhã de sol e calor em Goiás, em 1983. Perambulando pela vida, caí em Recife, onde, dentre outros hobbies, curso medicina. Criei este recinto para que você possa degustar um pouquinho de La Vita Mia. Saber quem eu sou, o que gosto de fazer, o que penso, quais são meus sonhos e projetos, hobbies, enfim, o suficiente pra fazer parte de La Vita Mia.Você se encontra num espaço democrático e, como tal, sinta-se à vontade e, suficientemente respeitado, pra se expressar como e quando quiser. No mais....Carpe Diem!